06 agosto 2026

Barco à vela

Até que a noite o sinta, o tigre

o leão, e a abelha é despedida do vento

quando a colmeia é o sangue menstrual da madrugada, quando o dente do sizo

e o granizo

e a aldeia dos macacos, é a primavera encantada

na sombra, e no caixão

que o corpo espera, o fogo

e o barco à vela, em mão contra.

 

Tudo desapareceu, até o céu

o silêncio do cinzento, o encardo da pele crestava e sentia

na alma diáfana do milhafre ferido, no destro

na boca do rio, da malhadeira encostada

à serpente, que mente

que diz a toda a gente, o verso

não o é, mais

a flor; ausente.

 

06/08
20:12

O cacilheiro para Almada

A pata, descalça

calçado o sapato, envernizado

descalça, a pata

põe os ovos, no sapato

e a pata

fica, calçada.

 

Sete vidas tem o miau, miau

miau

miau

miau,

au

miau, miau.

 

Ão, ão

o cão, a pata

o calçado sapato, ão.

 

O cacilheiro para Almada, é quase sapato

é espingarda, é o gato

é a espinha dorsal do pólen encurralado, dentro do sapato

a pata escorrega, cai

miau,

ão.

 

06/08
19:56

O socalco

O socalco, à enxada que escreve no xisto

cada traço, e nova viagem

uma viga alveolar no seu desistir

de continuar

de ser uma viga alveolar

na razão

e no sonhar

 

Olho-a e nada o é depois de vir, do outro lado da sombra

o socalco almejar, em brando foguear, na tristeza quando a raiz de uma pedra procura

na terra

o esconderijo da rua sem saída, sem

no socalco palmilhado, rio acima

rio enforcado

 

Viga alveolar no meu espelho em frente

ao mar, o que seria do momento flector e da tensão, e da flecha

e na espada a mão, e no olhar

o sítio mais obscuro da morte, morte

da viga alveolar

enquanto o socalco é a dor,

nas asas incandescentes do luar

 

06/08
04:17

05 agosto 2026

O poeta morreu, e leva com ele o só

O poeta morreu, e leva com ele

o só

do silêncio de uma estrela, vermelha

no último vagão

de qualquer

e anónimo

e limitada companhia

o foguetão, tão

cansado de subir, e de

descer

e depois,

 

cair no mar.

 

E claro, como o sempre.

 

Se foder.

 

Mas o poeta não quer saber, nem da bicicleta

nem do saber

nem da alvorada, morada

na invés distância

quando o chover

é nada mais

nada muito menos

 

do que uma lágrima,

 

do foder.

 

E é bem verdade que sempre (há) mais alguém, a querer

querendo, o poeta foder

 

e ele se fode, sempre.

 

E ninguém,

 

ninguém o acode.

 

O poeta morreu, e leva com ele

o só

da algibeira e da burrinha, galopando tropegamente

os atrelados de palha molhada

que o fogo alimenta

seus filhos, mais

a governanta de seus filhos.

 

E Deus.

 

05/08
22:01

Chove no vento a cara do vampiro, no tiro na bala

Chove no vento a cara do vampiro, no tiro

na bala, e a espingarda sem tempo

é enterrado puramente abstracto o poeta na vala, a cadeira a comer a sopa, sentada

sentada na sala

 

E chove no higiénico papel do cu desenhado, a vírgula abastecida de diesel, e de goiaba

as mangas já se comem lá para os lados do cubo, amansado e despejado

do quinto andar, esquerdo

e direito

ao fundo

o corredor amedrontado porque

amanhã, ou hoje

 

É sábado de Aleluia, que gritaria

na alegria, que deus esteja connosco, e não

convosco

as uvas já tiveram outro chão para dança a penugem

do ujo, e da leoa

porque o jacaré estacionado junto aos barcos, na terceira prateleira

da estante,

e sentindo

o néon em vento,

 

Na cara do vampiro.

 

Chove, chove na aldeia dos macacos.

 

05/08
21:39