22 maio 2026

Serei

Serei
Sei
Beijei
Dancei
Me cansei
De ser
Viver
Ter
E sofrer
Serei
Sei
Abracei
E também defequei
O faquir
Sei
Dizei
Que eu o serei

Francisco
22/05
02:13

21 maio 2026

Naquele tempo

Naquele tempo, Jesus estava sentado e fumava

Judas, defecava ao som de música clássica

Mateus, deliciava-se com as mangas do quintal

E Pedro tomava conta do aquário,

 

Um buraco os separava do deserto

Um rio os tornava mais famintos

Pela carne, pelo cio

Pelo destino,

 

Naquele tempo, Jesus estava sentado e fumava

O que ele fumava não se sabe

Talvez pensasse, talvez sonhasse

Talvez o quisesse, ou até também defecasse,

 

Que naquele tempo tudo era o princípio do vento

Naquele tempo, Jesus estava sentado e fumava

E a pedra onde se sentava

Era uma simples pedra, coisa pouca ou de nada,

 

Naquele tempo, sentia-se a morte

Vestia-se a metáfora de ardósia

À mão regressavam as flores já defuntas, e tristes

Como o dia de hoje.

 

Francisco

21/05

20:18

Independentemente de estar tudo bem ou tudo mal, uma partícula ou um pedaço de energia podem estar em dois locais diferentes no mesmo instante de tempo.

Nada me pertence, tudo me vence

Nada me pertence, tudo me vence

Entre o fio crepuscular da ínfima distância e dois pontos de luz

A sílaba encarnada em veneno terrestre

Em busca da perfeição de um abraço,

 

Nada me diz, que da palavra nasce o vento e cansaço

Disfarçado de infinito

Ao longe se não sente

É porque está triste, é porque está faminto,

 

Entre o nada que inventa a limalha e a outra margem do mar

Ah, então pertencíamos ao abismo e hoje

Pertencemos ao silêncio de um cubo

No silêncio de uma esfera,

 

Nada me pertence, que tudo me vence

No olfacto milhar que estrénua a morte

E eu sem saber

A mínima distância entre dois pontos e a sorte.

 

Francisco

21/05

20 maio 2026

Durante a noite ouvi o miar de um gato, há muito que o não ouvia

Há muito que eu não sentia um gato

Talvez o gato não exista

Talvez o gato seja só uma voz

Na noite voz de um grito,

 

Mas depois penso, será que o gato tem fome?

Estará ele ferido, doente

Porque mia tanto ele, no seu sofrer

E ter dentro de si

A noite e a força do viver,

 

Mas durante a noite tudo se pode ouvir

O miar de um gato doente

O latir de um cão contente

Um verso que é gente

Ou a voz ausente…, amo-te.

 

Francisco

20/05

04:57