08 agosto 2026

Era a geada

Era a geada,

na fria mão de um menino.

Que às vezes, e muitas, vezes

de tão cansada, o estar

que não era mais a geada,

na fria mão do menino,

passou a ser, a ser a enxada

do nome, e no seu destino.

 

Era a geada,

em cada granito, em cada grito

de uma escada, e manhã cedo

o menino brincava, e se divertia

a olhar e a tocar, na geada

e a escorregar nos degraus de uma escada.

 

08/08
18:50

Um dia, disse ao meu pai

Um dia, disse ao meu pai

Um dia, pai

Mas não sendo eu pai, um dia lhe disse

Que um dia, eu seria

A seara envenenada. Tão só

Como o frio de uma espada.

 

Que um dia, eu lhe disse, que um dia, eu

Sim, meu filho

Tu.

 

Que um dia, eu lhe disse

Quando um dia, eu teria

Que nem a terra me comia, que um dia

O mar tinha flores, e

E meninos a brincar, na espuma

Quando às vezes se escondiam nas sós

E muitas sós, um dia, as

Conchas, abandonadas, a fria areia e branca, do outro

Lado,

Do mar.

 

No outro silêncio da chuva, que um dia, eu lhe disse

Lhe disse que um dia, eu o seria

Clara, claro que ele não acreditava, que também eu, tal como ele

Um dia, eu tal como o seria, mas às vezes, não o sendo

Lhe dizia, pai

Olha que um dia!

Estás, maluco, pá.

 

Que um dia, eu como tu

O seria, sabes, pai

Um dia, lembras-te, daquele, dia

Em que os teus olhos pareciam a chuva, molecular sobre os candeeiros da alma, e eu sabia, e tu sabes, que eu um dia

Nada,

Nada o seria.

 

08/08
18:35

Talvez o sejas, tu, a mulher

Talvez o sejas, tu, a mulher 

Do meu viver, se existe viver 

Na mulher que o livro faz arder 

Talvez sejas, o sejas, tu

A primavera do meu olhar, talvez o sejas, a mulher 

Inverno, do meu inferno, de amar 

 

E talvez nada o sejas, na luz

Da chuva que me abraça, e que não me deixa sonhar.

 

08/08

16:03

Quase, que chove

Quase, que chove

Na terra seus seios, na terra vergada

Na sombra, em punho, a espada

Na voz, quase migalha, quase lágrima chorada

 

Nasci, afinal, para isto ser

Quase que chove, no meu triste chover

Na minha mão, em meu escrever

Quase, quase que chove, no meu viver

 

08/08
05:18

Acordar

Dois galos disputam a mesma galinha, sou eu, que o penso

Sentado, enquanto saboreio o meu café, primeiro

Cigarro, oiço dois galos em cio, ao fundo da estrada

Fumo, saboreio, e penso

O que me querem, eles dizer?

 

Mais no longe do meu olhar, outro galo

Se junta ao recreio, e tantas são as crianças

E de tão poucas, ou outras muitas

Lembranças, e eu fumo

E, e eu penso

O porquê, destas andanças

 

Mas as crianças

São mais do que muitas, e oiço-os

E digo-me, enquanto de mim, vergonha, tem a

Noite,

Que feliz eu sou, doente não estou

Fumo, penso no escrever, muito longe

O meu fumar,

 

E que bom, este meu acordar, sentado, a fumar e a pensar e a ouvir, galos

A

Cantar,

 

Na disputa, da mesma galinha.

 

08/08
05:05