21 maio 2026

Independentemente de estar tudo bem ou tudo mal, uma partícula ou um pedaço de energia podem estar em dois locais diferentes no mesmo instante de tempo.

Nada me pertence, tudo me vence

Nada me pertence, tudo me vence

Entre o fio crepuscular da ínfima distância e dois pontos de luz

A sílaba encarnada em veneno terrestre

Em busca da perfeição de um abraço,

 

Nada me diz, que da palavra nasce o vento e cansaço

Disfarçado de infinito

Ao longe se não sente

É porque está triste, é porque está faminto,

 

Entre o nada que inventa a limalha e a outra margem do mar

Ah, então pertencíamos ao abismo e hoje

Pertencemos ao silêncio de um cubo

No silêncio de uma esfera,

 

Nada me pertence, que tudo me vence

No olfacto milhar que estrénua a morte

E eu sem saber

A mínima distância entre dois pontos e a sorte.

 

Francisco

21/05

20 maio 2026

Durante a noite ouvi o miar de um gato, há muito que o não ouvia

Há muito que eu não sentia um gato

Talvez o gato não exista

Talvez o gato seja só uma voz

Na noite voz de um grito,

 

Mas depois penso, será que o gato tem fome?

Estará ele ferido, doente

Porque mia tanto ele, no seu sofrer

E ter dentro de si

A noite e a força do viver,

 

Mas durante a noite tudo se pode ouvir

O miar de um gato doente

O latir de um cão contente

Um verso que é gente

Ou a voz ausente…, amo-te.

 

Francisco

20/05

04:57

19 maio 2026

Quanto pesa o silêncio de uma sanzala

Quanto pesa o silêncio de uma sanzala

Como se chama o triste olhar de uma madrugada

Como pode estar

Um pedaço ínfimo de energia

Em dois sítios distintos ao mesmo tempo,

Como pode?

 

A que sabe uma lágrima

Lágrima – o teu nome

Quantos dias tem dias a fome

E quantas quantos milímetros pode ter um sorriso

Antes da chuva, como pode, uma partícula desobedecer às leis da mecânica clássica,

Como pode?

 

Como pode o meu corpo ser quase lixo, o bicho

O tareco que faz, miau

Au,

Como pode um Ateu acreditar em partículas,

 

Como pode,

 

Pode.

 

Como pode toda esta merda ser real?

 

Pode.

 

Re.

Al.

Real.

 

Como pode o dinheiro ser a prisão da sanzala

Como pode, a sala voar depois do jantar

E a sanzala ausente

Firme

Em puro tesão de tungsténio

E eu sabia-o,

Que aqui a força não é igual à massa vezes a aceleração

Que aqui o peso não é igual à massa vezes a gravidade,

Que de tão grave o ser,

Foi baptizada de nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado,

 

E agora sim, estamos todos fodidos, e mal-alinhavados pelo tédio de uma côdea de centeio, tirando os pregos dos alforges,

Quanto pesa então uma sanzala?

E quanto vale o tesão de uma espada?

 

Como pode.

 

Como pode a terra ser apenas de alguns, como pode

Pode,

E já agora,

 

Como se chama o mais ínfimo pedacinho do poema?

 

Ema.

Cama.

 

Como pode?

 

Francisco

19/05
22:10

Supervisão quântica

Uma partícula pode estar em dois locais diferentes ao mesmo tempo

Supervisão quântica

Mas, o que interessa

A mecânica quântica

 

O que me interessa, a mim

 

Se já nada me interessa neste jardim.

 

Francisco

19/05