07 agosto 2026

No que pareço, eu o mereço

No que pareço, eu o mereço

a tristeza, na solidão, eu o sou

menos do que pareço

e não o mereço

o pão já cansado, no vinho, na caminha

deitado, e eu que até o pareço

não o mereço, eu pertenço

à rua e aos pássaros em contravento, ventoinhas sobre os lírios do destino, de pertencer

e de o merecer,

 

não vaidade, nunca o fui

nem o quero ser, apenas ser

o inverno mais rigoroso, temido e desventrado

na mão de um guardanapo, um velho trapo

acidentado à nascença, de merecer

que o apareço, e o aparece

sobre o limo da navalha, na boca, o chupa-chupa

e o moleque, à porta da cubata

ela fode e cospe e geme, e o tecto, que não o tem

ou o é, deixando aos poucos de o ser, como eu, o ser

em lata, na chapa quinada, no que pareço, eu o mereço

de pertencer

e de o merecer,

 

não o ser, nada

 

06/08
22:24