Podia ser a chuva
Que abraça a seara
Numa noite ventosa,
Podia ser o frio
Que sem medo que sem
tédio
Beija a montanha
E acaricia cada árvore e
cada ribeira,
Podia ser a lua
E o luar
E a ponte pedonal,
O rio cansado
Eu podia ser
Uma estrela no céu,
Podia ser eu um verso
Sem palavras
E invisível ao coração
alheio,
Podia ser um pinheiro
Balançando
A cada som ouvido,
Podia ser o destino
Sonhando de menino
Correndo na praia,
Podia ser o poeta
E a mangueira brincando
E a mangueira olhando,
O menino no chão
desenhando
A medula espinhal do
silêncio,
Podia ser uma porta
Uma janela
Ou até um pedacinho de
vidro,
Podia ser um copo de
vinho
Um cigarro
Ou um charro,
Podia ser o Mussulo
Procurando na chuva
Que abraça a seara
O livro,
Podia ser cada pedra de
uma calçada
Tão calcada e cansada
Que à vezes pedia ajuda,
Podia ser o Tejo
E cacilheiro que ficou
Também à procura da chuva
O nome da chuva,
Podia ser uma equação
complexa
Diferencial
Abstracta até,
Ordinária
Podia ser a teoria da relatividade
Ou a sexta dimensão,
Podia ser o pão
O campo de milho de
Carvalhais
Ou a eira no granito aflito,
Podia ser um grito
Podia ser a chuva
Que abraça a seara,
Mas quis Deus que eu fosse apenas um abastecedor de combustíveis.
O7/07
05:24