(ao meu pai, que daqui a um
par de horas, faz 11 anos que partiu.)
O foguetão não flutua,
o comboio partirá daqui a
cinco minutos,
o tempo está bom,
ausência
de vento ou outros
abstractos
silícios
e nós,
todos estamos
bem
incluído,
claro,
os
peixinhos
Morra-se de tédio,
se a vida
o permitir, se a chuva o
quiser,
que um dia
a nuvem deixe
de conversar
com os infinitos,
e também
olhos de água
muitas coisas,
são mentira
tanta coisa falsa, tanta
coisa
inventada
E o foguetão aqui,
a olhar-me
que triste
figura a tua
já te olhaste ao espelho?
me diria ele,
me diria ele
Mas que se foda,
amanhã acordará gente
sem pátria, eu
às vezes sinto-me uma
charrua
mecânica, sem pátria,
sem nome
sem gente a terra
e o silêncio,
cem árvores famintas,
sem dó
sem amigos para lançar
pedras, ou
nozes
em pó
Há ferrugem na voz do
poeta,
há medo
nas palavras que se
escrevem na voz do poeta
há milho, há milho na
caixa grande
e assombrada
por uma janela,
e por uma espada
que dança sobre o gelo
que numa calçada, finge
ser rei,
que se diz
perdiz
um dia sonhei
Que um dia, eu iria
ser
rei.
Foda-se,
Rei?
Puta que pariu a vida,
que muito
deve ser fodida
para um mundano rei,
como eu.
Não. Rei não.
Gostava de ter sido
costureiro,
mas a vida, a puta da
vida,
a minha
não o quis
e então,
me trouxeram, me
vestiram,
me mataram a fome
e hoje, coitado
que mal come
vírgula,
dois. Dois apenas minutos
para a nossa
partida e fuga
nesta locomotiva
empolgante e alegre
que nos levará além longe
que fica nas traseiras
do prédio
pertinho do jardim
onde tenho o foguetão
estacionado.
28/07
22;17