28 julho 2026

O foguetão

(ao meu pai, que daqui a um par de horas, faz 11 anos que partiu.)

 

O foguetão não flutua,

o comboio partirá daqui a

cinco minutos,

o tempo está bom,

ausência

de vento ou outros abstractos

silícios

e nós,

todos estamos

bem

incluído,

claro,

os

peixinhos

 

Morra-se de tédio,

se a vida

o permitir, se a chuva o quiser,

que um dia

a nuvem deixe

de conversar

com os infinitos,

e também

olhos de água

muitas coisas,

são mentira

tanta coisa falsa, tanta

coisa

inventada

 

E o foguetão aqui,

a olhar-me

que triste

figura a tua

já te olhaste ao espelho?

me diria ele,

me diria ele

 

Mas que se foda,

amanhã acordará gente

sem pátria, eu

às vezes sinto-me uma charrua

mecânica, sem pátria,

sem nome

sem gente a terra

e o silêncio,

cem árvores famintas,

sem dó

sem amigos para lançar pedras, ou

nozes

em pó

 

Há ferrugem na voz do poeta,

há medo

nas palavras que se escrevem na voz do poeta

há milho, há milho na caixa grande

e assombrada

por uma janela,

e por uma espada

que dança sobre o gelo

que numa calçada, finge ser rei,

que se diz

perdiz

um dia sonhei

 

Que um dia, eu iria

ser

rei.

 

Foda-se,

Rei?

 

Puta que pariu a vida, que muito

deve ser fodida

para um mundano rei,

como eu.

Não. Rei não.

Gostava de ter sido costureiro,

mas a vida, a puta da vida,

a minha

não o quis

e então,

me trouxeram, me vestiram,

me mataram a fome

e hoje, coitado

que mal come

vírgula,

dois. Dois apenas minutos para a nossa

partida e fuga

nesta locomotiva empolgante e alegre

que nos levará além longe

que fica nas traseiras

do prédio

pertinho do jardim

 

onde tenho o foguetão estacionado.

 

28/07
22;17