19 fevereiro 2026

Isto & Aquilo, SA

Corrigindo com assiduidade, uns dias

Todos os outros dias, que me canso, que me invento

Vestindo-me de vento,

 Fingindo que não sinto, sentir a raiz do pensamento

 

Fingindo, está à janela o senhor Álvaro de Campos, fingindo que fuma, fingindo

Que do outro lado da rua, a menina

Brinca, & come chocolates

 

Fingindo, também fingindo, está o senhor Mário de Sá-Carneiro, fingindo que tem uma secretária, que sobre a secretária tem um revolver, e pertinho

Também fingindo, está a bala

Que disparada por ele, fingindo

Matou o poeta, apenas fingindo

 

&

 

Depois, & depois

Isto, & aquilo, &

Enrolo um cigarro, e penso

E em tanta coisa que o senhor Álvaro de Campos podia pensar, mas pensar em quê?

Se ele nunca foi nada, à parte disso, tinha em si, todos os sonhos do mundo

Não, não mais desejarei, nem a morte

Nem a sorte, nem outra coisa qualquer

Que me duplique, e que me faça acreditar, que o AL Berto, que o Pacheco, foram felizes,

Tanto como eu o sou, à minha maneira

 

Janelas do meu quarto, e o que vejo e sinto

A não ser, a poeira azul de um sonho de menino, e penso

Que a raiz quadrada de vinte & cinco,

Cinco, depois, & aquilo

Depois,

O cansaço, a dor, & o sono de uma aldeia que já foi cidade, e que hoje é dor, e que

Hoje, e que hoje passeia, e que hoje

E que hoje é um barco sem idade

E que sobre o mar semeia,

 

Isto

&

Aquilo, SA.

 

19/02/2026, 22:24

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