20 fevereiro 2026

algo de estranho, em mim

algo de estranho, em mim

tão estranho, dentro e em mim

tão estranho que não consigo ficar triste, tão estranho

a alegria que sinto, e que vejo

quando me olho no espelho da manhã, e ao longe

o perfume do meu rosto, sem lágrimas

e sem fome

 

que não importa o nome, ou o número indefinido

e que nos foi transmitido pelo nosso progenitor, porque

progenitor todos o podemos ser, a não ser

que pais não o podemos ser todos

 

e a roda quadrática do ónus que serpenteia a noite, que se veste de mulher

que tem nas mãos a espada, e no olhar

o silêncio de uma vírgula, de uma enxada

que de baixo até ao cimo da montanha, que de socalco em socalco

já não cai, e também não mais me acanha

 

ou apanha, ou grita os tais e os ais

que estou bem, obrigado

dos meus órgãos genitais, que não pratico qualquer desporto, a não ser

 

algo de estranho, em mim

tão estranho, dentro e em mim

tão estranho que não consigo ficar triste, tão estranho

a alegria que sinto, e que vejo,

 

e cheiro a claridade dos destemidos homens de veludo, e que a loucura é passageira, tal como a noite, tal como o dia

tal como a chuva,

a alegria, a poesia, a vírgula já tão tonta e que estonteia

as sementeiras da aldeia, o trigo colhido, foi ontem o fumo de um pequeno silêncio,

 

também sabe a lixivia a virgindade de um livro, toco e manuseio o tabaco, cheiro-o

e me sinto tão estranho, e tão contente

de viver, e de ser gente

 

finalmente, gente.

 

20/02/2026, 19:27

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