03 janeiro 2026

Quatro peixes

Quatro peixes que eu tenho, alguns dos meus poetas, tinham gatos

Gatos pretos, e gatos brancos,

Eu,

Eu odeio gatos, e tinha quatro peixes,

Tinha,

Porque hoje dei-me conta, que um dos meus peixes

Zarpou aquário fora, talvez tenha ido à pesca, ou à loja do continente,

Para foder, depois, a cabeça à gente

Com tanta promoção e com tanto, e tanto

Talão.

 

Uma vez que o era, quando ainda ele sentia, que a cada novo dia, certamente

O nojo seja a cura do doente, seja

Quando a morte se transforma na fuga de um peixe, que talvez

Que do sítio em branco atá à sebenta do engenheiro, outro peixe se levante,

Ou até cresça, no centro geométrico da eira de Carvalhais

Uma árvore, ou um abraço…

 

Ou até quem sabe, no centro geométrico da eira de Carvalhais, cresça, cresça um imbondeiro, e à sua volta pedacinhos de números decimais,

Como gente sentindo, como a gente que foge do destino

Cravando no peito, a primeira flor da primavera,

 

E veja o seu rosto impresso na necrologia dos jornais.

E depois outro peixe partirá, e mais outro e mais outro

E depois,

 

Eu,

 

Eu o quê, concretamente?

 

No centro da cidade, um apito

Um peixe perdido, um peixe que sente

E se senta na berma da estrada, e que se imagina

Dentro de um círculo de luz com portas e janelas, com silêncios, e

E com velas acesas à volta do imbondeiro, que durante a noite cresceu

No centro geométrico da eira de Carvalhais,

 

E de quatro peixes, hoje são apenas espinhas, que os gatos pretos e que os gatos brancos dos meus poetas,

 

Têm sobre a mesa,

 

Eu o quê, concretamente?

 

03/01/2026, 07:36



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