16 janeiro 2026

Pai ensina-me a voar

Pai ensina-me a voar porque um dia se eu souber voar vou ser tão feliz pai,

Diria que a primavera acordava tarde e a más horas, vivíamos muito apertadinhos no largo de santo António, o meu irmão quase sempre se deitava cedo, porque acreditava que quanto mais cedo se deitasse, mais tarde era sábado.

Mas pai é só voar. Voar pai.

A nossa mãe lamentava-se porque o Francisco durante a noite conversava com os pássaros que ela tinha pincelado no tecto da alcofa, uma Bedford amarela, quase chuva em direcção ao Grafanil, o uivo de um silêncio quando o meu irmão se erguia da cama e em berros quase semeados pelo musseque,

Pai ensina-me a voar.

Quase não sentia os ossos quando durante a noite a geada era tão fina como fino era o meu cobertor, e lá está ele a olhar pela janela. Este rapaz é maluco.

Os carros, às vezes, paravam junto a mim, depois dávamos a mão e subíamos as escadas.

Quando entrávamos em casa já o Artur estava escondido no sótão, tinha sempre com ele um pequenino rádio a pilhas e de vez em quando, sentia o cheiro do capim; pode lá ser meu pai.

O Francisco voar. Nunca meu pai.

Hoje …

O meu amor voa contigo, sempre.

Sem comentários:

Enviar um comentário