Pai ensina-me a voar
porque um dia se eu souber voar vou ser tão feliz pai,
Diria que a primavera
acordava tarde e a más horas, vivíamos muito apertadinhos no largo de santo
António, o meu irmão quase sempre se deitava cedo, porque acreditava que quanto
mais cedo se deitasse, mais tarde era sábado.
Mas pai é só voar. Voar
pai.
A nossa mãe lamentava-se porque
o Francisco durante a noite conversava com os pássaros que ela tinha pincelado
no tecto da alcofa, uma Bedford amarela, quase chuva em direcção ao Grafanil, o
uivo de um silêncio quando o meu irmão se erguia da cama e em berros quase
semeados pelo musseque,
Pai ensina-me a voar.
Quase não sentia os ossos
quando durante a noite a geada era tão fina como fino era o meu cobertor, e lá
está ele a olhar pela janela. Este rapaz é maluco.
Os carros, às vezes,
paravam junto a mim, depois dávamos a mão e subíamos as escadas.
Quando entrávamos em casa
já o Artur estava escondido no sótão, tinha sempre com ele um pequenino rádio a
pilhas e de vez em quando, sentia o cheiro do capim; pode lá ser meu pai.
O Francisco voar. Nunca
meu pai.
Hoje …
O meu amor voa contigo,
sempre.
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