29 dezembro 2025

Arada charrua encravado rio

 

Não pertenço a esta terra, arada charrua encravado rio

Na transversal despedida, que parto, sem nunca ter pertencido

A esta terra, a esta gente que me odeia

Não pertenço a esta terra, a esta terra que em mim semeia

As espadas e as balas e as pedras, sem nunca ter oferecido

À terra que me odeia, o centeio, e o milho

De eu ter nascido, nascido sem nunca ter eu pertencido

A esta terra, a esta terra sempre escondida

Nos seios de uma outra terra, e de outro mar

 

Eu vim, a outro mar eu pertenci

Que esta terra nunca me amou, e nunca me vai amar

E que o meu corpo é cansaço, e que o meu corpo é sangue

Disfarçado de uma terra, de não gente, de uma terra que nunca sentiu, e que nunca sente

Que há gente, doente e sem lar

Que desta terra eu sinto o meu apedrejar

E que cada palavra minha, a esta terra nunca pertenceu

Nem será lagrima do mar

Mas a terra de quem sofreu.

 

29/12/2025, 05:49


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