13 novembro 2025

O abismo

 


Uma rua não se diz a ninguém, é feio

Não é chique

Não é inimaginável, um dia, eu ser uma rua

Uma rua alegre, e quente, e com muita gente

Que um dia uma mão não se cruzará no interior de uma outra rua, rua

 

E saiu e que ainda não regressou, despiu o casaco, semeou nas ardósias amígdalas as tomatas, os pimentos, e às cebolas, deixou-as sobre a bancada, mergulhadas em néon, e antes

Benzidas com umas gotinhas de nitrogénio líquido, anteriormente adquirido à casa Grifo, e em suaves seis prestações

 

E uma rua sabe tudo, e de tudo ela se esquece

Pilatos lavou as mãos, ela apertou-lhe a braguilha, e foi-se

Que era um rebanho com muitas, muitas poucas cabras, e tantos, que são tantos os cabritinhos

E ainda a aldeia está na escuridão

Tão negra, a noite

 

A apitar, o silêncio de uma máquina, sincronizada, afinada, afiada, e por fim,

Sepultada,

Numa qualquer sucata

 

O abismo é uma kalashnikov desaparafusada, quase que ninguém lhe liga, e se liga

É para lhe perguntarem,

Lisbon, Lisbon

O gajo abriu as precianas do olhar, e

 

Sigue lo alcatron; e o comboio começou a mover-se.

 

13:11:2025, 22:43

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