09 novembro 2025

E a janela quase que era o silêncio, azul, do mar

 

Dormi num sítio onde dormiam loucos, tinha um corredor tão longo, esse sítio, como longo era o comboio para santa Apolónia,

E longa era a minha tristeza, daqueles dias, frios, miseráveis as janelas com

Grades,

Podia lá ser se um dia, um dos loucos, partisse…

E para onde iria um louco em fuga?

Se eu fosse louco, se eu estivesse em fuga, eu diria

Que partia,

Para o jardim.

 

O louco me cumprimentava, na pequena ânsia que de algo eu lhe respondesse,

Porque eu não falo com loucos, e ignorava-o

Vai chatear o Camões, porque estou de férias,

A comida era boa, talvez fosse também, louca

Quando se sentava ao meu lado, e eu lhe implorava,

Mais três, só mais três gotinhas desse milagre líquido

(depois escrevia-lhe um poema)

E o leite sabia-me quase a voo certo, entre a copa

E o dormitório, desse estabelecimento onde dormi,

E onde dormiam loucos.

 

E eu nunca estive louco. Apenas sonho com loucuras.

Ler não é vaidade, nem nada de aparências, ler é necessidade, ler é sentir-me vivo, amado,

Ler não é ser louco, ou tolo,

Porque dormi num sítio onde dormiam loucos, loucos como eu, que nunca estiveram loucos, e ouvíamos os pássaros do outro lado do gradeamento, e a janela

E a janela quase que era o silêncio, azul, do mar.

 

09/11/2025, 22:04

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