Dormi num sítio onde
dormiam loucos, tinha um corredor tão longo, esse sítio, como longo era o
comboio para santa Apolónia,
E longa era a minha
tristeza, daqueles dias, frios, miseráveis as janelas com
Grades,
Podia lá ser se um dia, um
dos loucos, partisse…
E para onde iria um louco
em fuga?
Se eu fosse louco, se eu
estivesse em fuga, eu diria
Que partia,
Para o jardim.
O louco me cumprimentava,
na pequena ânsia que de algo eu lhe respondesse,
Porque eu não falo com
loucos, e ignorava-o
Vai chatear o Camões,
porque estou de férias,
A comida era boa, talvez
fosse também, louca
Quando se sentava ao meu
lado, e eu lhe implorava,
Mais três, só mais três
gotinhas desse milagre líquido
(depois escrevia-lhe um
poema)
E o leite sabia-me quase
a voo certo, entre a copa
E o dormitório, desse
estabelecimento onde dormi,
E onde dormiam loucos.
E eu nunca estive louco. Apenas
sonho com loucuras.
Ler não é vaidade, nem
nada de aparências, ler é necessidade, ler é sentir-me vivo, amado,
Ler não é ser louco, ou
tolo,
Porque dormi num sítio
onde dormiam loucos, loucos como eu, que nunca estiveram loucos, e ouvíamos os
pássaros do outro lado do gradeamento, e a janela
E a janela quase que era
o silêncio, azul, do mar.
09/11/2025, 22:04
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