06 outubro 2025

Ardes em cada verso do meu poema

 

Ardes em cada verso do meu poema, como se fosses uma janela embriaga, que todas as noites espera o vento

Mas o vento é apenas um sentir o baloiço de um cabelo doirado, do mar o sonífero silêncio de uma jangada, que nunca será livre, que às vezes sorri, que às vezes dorme no vão de uma escada.

 

É tarde o tempo, sempre que o tempo, e que o vento

Sentindo no alacto as palavras de um destino, um destino do tamanho da lua mais distante das árvores nocturnas que vagueiam de sílaba em sílaba, a cada minuto, uma outra vírgula, tão só e tão só, que até o inverno se agacha e se ajoelha aos pés de uma lareira, onde também ardes, e onde também ardem todos os meus livros.

 

Ardes em cada verso maligno do cancro que me atormenta, não saber o que escrevo, não saber a que destino pertenço, ou se até mereço, ou se até detenho dentro de mim as raízes de um outro cancro, que não é meu, não me perdendo sequer, a cada rio do meu corpo.

 

Ardes em cada verso do meu poema, em cada momento, todos os sentidos, todos, acreditando que esse mesmo vento, que um dia, a janela a que pertences, será a luz, durante o dia, e durante a noite, a minha poesia; onde ardes como se fosses uma janela embriaga.

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