Ardes em cada verso do
meu poema, como se fosses uma janela embriaga, que todas as noites espera o
vento
Mas o vento é apenas um
sentir o baloiço de um cabelo doirado, do mar o sonífero silêncio de uma
jangada, que nunca será livre, que às vezes sorri, que às vezes dorme no vão de
uma escada.
É tarde o tempo, sempre
que o tempo, e que o vento
Sentindo no alacto as palavras
de um destino, um destino do tamanho da lua mais distante das árvores nocturnas
que vagueiam de sílaba em sílaba, a cada minuto, uma outra vírgula, tão só e
tão só, que até o inverno se agacha e se ajoelha aos pés de uma lareira, onde também
ardes, e onde também ardem todos os meus livros.
Ardes em cada verso maligno
do cancro que me atormenta, não saber o que escrevo, não saber a que destino
pertenço, ou se até mereço, ou se até detenho dentro de mim as raízes de um
outro cancro, que não é meu, não me perdendo sequer, a cada rio do meu corpo.
Ardes em cada verso do meu
poema, em cada momento, todos os sentidos, todos, acreditando que esse mesmo
vento, que um dia, a janela a que pertences, será a luz, durante o dia, e
durante a noite, a minha poesia; onde ardes como se fosses uma janela embriaga.
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