17 setembro 2025

Pontos de luz

 

Pontos de luz são os teus olhos, mãos de deus, são as tuas mãos, quando tocam no ruído do meu silêncio,

Vírgulas, em sonolenta embriaguez de uma encruzilhada, voando como uma espada,

Sofrendo, como sofre o poeta, como sofre a árvore quando dizimada pelo fogo, quase o primeiro beijo no sorriso do pôr-do-sol,

 

Pontos de luz também são as ribeiras que sobrevoam os teus seios,

Também são pontos de luz as palavras que escrevo, e que depois incendeiam a noite, por baixo de um lençol e o corpo é quase, também ele, dois pontos de luz,

 

Há uma cama que chora, há uma lápide que me agride, e não a quero ver mais, há

Há um sorriso fingido, e há uma galinha que brinca no quintal da vizinha, não sei a quem pertence a galinha, mas confesso

Que me irritam as galinhas.

 

Eugénio de Andrade, era apaixonado, por gatos, eu odeio gatos e também estou apaixonado, não por gatos

Talvez gostasse mais de patos, os parrecos, são engraçados, quando acorda a manhã, e eles

De rabinho a dar a dar e em pequenas curvas,

 

AL Berto tinha amigos que tinham gatos, eu não tenho amigos e odeio gatos, irritam-me quando me olham, há qualquer coisa estranha em seus olhos, parecem duas balas cravadas no peito,

 

Pontos de luz são o pão que o diabo amaçou, são as janelas que nunca ninguém as abre, e não sei por que razão tal acontece, todos os dias estão as janelas escancaradas, como sílabas embriagadas, como raízes quadradas, semeadas sobre uma túnica negra, eu que hei-de resolver a equação de deus, e que deus os tenha, salvo-seja após o jantar, um pingo de mel, desce pelo meu corpo, imagino os teus lábios em busca de,

 

Dois, de dois pontos de luz.

Sem comentários:

Enviar um comentário