Pontos de luz são os teus
olhos, mãos de deus, são as tuas mãos, quando tocam no ruído do meu silêncio,
Vírgulas, em sonolenta
embriaguez de uma encruzilhada, voando como uma espada,
Sofrendo, como sofre o
poeta, como sofre a árvore quando dizimada pelo fogo, quase o primeiro beijo no
sorriso do pôr-do-sol,
Pontos de luz também são as
ribeiras que sobrevoam os teus seios,
Também são pontos de luz
as palavras que escrevo, e que depois incendeiam a noite, por baixo de um lençol
e o corpo é quase, também ele, dois pontos de luz,
Há uma cama que chora, há
uma lápide que me agride, e não a quero ver mais, há
Há um sorriso fingido, e
há uma galinha que brinca no quintal da vizinha, não sei a quem pertence a
galinha, mas confesso
Que me irritam as galinhas.
Eugénio de Andrade, era
apaixonado, por gatos, eu odeio gatos e também estou apaixonado, não por gatos
Talvez gostasse mais de
patos, os parrecos, são engraçados, quando acorda a manhã, e eles
De rabinho a dar a dar e
em pequenas curvas,
AL Berto tinha amigos que
tinham gatos, eu não tenho amigos e odeio gatos, irritam-me quando me olham, há
qualquer coisa estranha em seus olhos, parecem duas balas cravadas no peito,
Pontos de luz são o pão
que o diabo amaçou, são as janelas que nunca ninguém as abre, e não sei por que
razão tal acontece, todos os dias estão as janelas escancaradas, como sílabas
embriagadas, como raízes quadradas, semeadas sobre uma túnica negra, eu que
hei-de resolver a equação de deus, e que deus os tenha, salvo-seja após o
jantar, um pingo de mel, desce pelo meu corpo, imagino os teus lábios em busca
de,
Dois, de dois pontos de
luz.
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