03 setembro 2025

O jantar

 

A mesa ajoelhada sobre o soalho da aldeia, à sua volta, quatro cadeiras sentadas,

Uma agulha, vesga, também ela, não sentada, olha o guardanapo, coitado dele, uma vezes saboreia os lábios, outras vezes

Enfiado no cu de um qualquer transeunte abrupto, de sorriso nos lábios, apeado junto ao rio, espera o cacimbo, e olha a mesa

 

O cacimbo das catorze horas e trinta e dois minutos já saiu menina, o cacilheiro apitava para a mesa, a mesa

Olha um grilo junto à lareira em pequenas fumaças de iodo, mas depois o sargaço adivinhava sempre o braço que transportava a seitoira, de olhos cinzentos, e quando batia numa pedra,

Ela,

Chorava

 

As antenas do grilo captavam os sinais sonoros e binários que quase em certeza, só podiam ser do vizinho da cave, um gajo poeirento, um gajo quase sardinha, depois do jantar, depois da chuva, a mesa ajoelhada sobre o soalho da aldeia, no entanto

01100001 01101101 01101111 00101101 01110100 01100101,

E amanhã,

A ventoinha deixa de voar sobre o mar,

Este mar destemido, sem sentido, envergonhado e malvestido,

Até um qualquer poema, de merda, sobre também a mesa

 

O talher em prata, sobre também a mesa, o prato despido, onde poisam as mamas da tia Adosinda, esta teima

Teima que tenho de lhe devolver os dois escudos e cinquenta centavos que me dava quando eu lhe ia levar o almoço, depois

 

Descia a calçada, e

Senhor Grifo uma carteira de cromos se faz favor, como está a tia Adosinda, perguntava-me ele, e eu,

Lá anda, sentada, também sobre a mesa ela

 

E eu não sabia quantas gaivotas estavam poisadas sobre o telhado, sobre a mesa, sobre o soalho da aldeia, vou ao mapa, e vou escolher uma, e escolhi

Carvalhais

E lá ouvia os silêncios do milho, a antena no último sinal do grilo, parece que sim,

01110001 01110101 01100101 01110010 01101111 00101101 01110100 01100101,

 

E depois,

 

Ouvia a mesa sobre o soalho da aldeia, o avô Domingos deixou de fumar porque a avó Silvina, teimava

Queria uma casa, o dinheiro começou a encher a lata, agora que penso, odeio stocks, de grava em punho,

Fez a casa, depois,

 

A casa depois ardeu, e morreu

Do milho nunca se sabia como acordavam as borboletas que sorriam na toalha, bordadas pela dona Arminda, que chatice,

Parece, desaparece, o rio que corria para o mar

Do mar que me apedreje o primeiro barco, estou grávida

Mas as lágrimas são cinzentas, são percas debaixo de água, quase o centeio

 

Da última cubata de bico amarelo.

 

O jantar.

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