16 setembro 2025

Não tenhas medo, do medo, meu amor

 

Não tenhas medo, do medo, meu amor

O medo é apenas uma invisível sombra, sem voz, sem palavras, o medo pertence à noite, porque do dia, quase nenhum dia tem medo.

 

E eu deixei de ter medo, já que louco o sou, o medo não o tenho.

 

Não tenhas medo, meu amor, do medo, o teu ter medo

Porque eu já tive medo, porque o medo pertence ao meu quotidiano, em uníssono, em beleza, capaz de comer uma vírgula,

E de vírgula, antes e após outras vírgulas, um pedaço de rocha caiu sobre a cama,

E não tenhas medo, meu amor, teres o medo quando eu lancei o meu todo o medo janela borda de água fora.

 

Às vezes, rasgo retractos, dá-me prazer ver cada imagem em pedacinhos, quando os pedacinhos há muito rasgados, são poeira, são, são sombras que aparecem, que desaparecem, nas mãos de um cortinado,

Se eu tivesse um barco, eu o afundava, sem medo, terra adentro, mar abaixo, bem lá no fundo, bem lá no coração, do medo.

 

Mas eu já tive um barco, e o que fazia eu, quando tinha um barco?

Nada. Agachava-me no lago, poisava-o na água, e com a mãozinha tão fina que criança alguma tinha na sanzala, carregava num botãozito, tão pequenino como ele,

E ele,

Em curvas,

Andava.

Andava.

Andava.

Em círculos de lua e de luz.

 

Não tenhas medo, do medo, meu amor.

Medo.

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