Não tenhas medo, do medo,
meu amor
O medo é apenas uma
invisível sombra, sem voz, sem palavras, o medo pertence à noite, porque do
dia, quase nenhum dia tem medo.
E eu deixei de ter medo,
já que louco o sou, o medo não o tenho.
Não tenhas medo, meu
amor, do medo, o teu ter medo
Porque eu já tive medo,
porque o medo pertence ao meu quotidiano, em uníssono, em beleza, capaz de
comer uma vírgula,
E de vírgula, antes e após
outras vírgulas, um pedaço de rocha caiu sobre a cama,
E não tenhas medo, meu
amor, teres o medo quando eu lancei o meu todo o medo janela borda de água
fora.
Às vezes, rasgo retractos,
dá-me prazer ver cada imagem em pedacinhos, quando os pedacinhos há muito
rasgados, são poeira, são, são sombras que aparecem, que desaparecem, nas mãos
de um cortinado,
Se eu tivesse um barco,
eu o afundava, sem medo, terra adentro, mar abaixo, bem lá no fundo, bem lá no
coração, do medo.
Mas eu já tive um barco,
e o que fazia eu, quando tinha um barco?
Nada. Agachava-me no
lago, poisava-o na água, e com a mãozinha tão fina que criança alguma tinha na sanzala,
carregava num botãozito, tão pequenino como ele,
E ele,
Em curvas,
Andava.
Andava.
Andava.
Em círculos de lua e de
luz.
Não tenhas medo, do medo,
meu amor.
Medo.
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