24 agosto 2025

Um pedacinho de sémen em lágrimas

 

Um pedacinho de sémen em lágrimas, em círculos completamente loucos, completamente, sós

Que há um fio que se puxa e depois vem o vento, quando a mão cintila, à porta da caverna, na alegoria, e sento-me, enquanto ainda pedacinho de sémen, em lágrimas, oiço já a voz de minha mãe, cada vez mais invisível, cada vez mais só, também

 

Um pedacinho de lágrimas, em sémen ainda, a página de um livro de poemas, manchada, parece cola

Mas não era cola, era apenas eu, ainda, um pedacinho de sémen, em lágrimas

E cada rio que eu beijava, uma ponte entrava em colapso,

E caía sobre o rochedo pigmentado de outras primaveras

Ainda todas desarrumadas, porque diziam

Que coitadas, são as montanhas desenhadas, pela mão de uma criança

 

Que sismo mais feroz, maior o tormento de uma lágrima, também ela, pedacinho como eu de sémen

O Reinaldo Arenas, olha-me porque me deixo cair sobre o telhado da tristeza, e que voava

Voava como um menino

Saltitando, e dançando sobre a mesa

 

Nem uma pistola dispara a bala contra o pedacinho de sémen em lágrimas, no xisto a voz esguia e severa, se a noite for capaz, ela gritará,

Pára, pára…

Pára

E a roda e o destino não sabem parar, não sabem o que é ter fome, e ter sede, e ter comida e ter a bebida, que às vezes, não me importava, que fosse cicuta

 

Que fosse marmelada, que fosse dizia-te, que fosse o horizonte de um triciclo suspenso na lâmina inferior de uma agulha,

Que é milagre, um motor sem combustível, entrar em combustão

Que a mão crava sobre o peito o punhal de cartão, colorido por dentro, crua

Chorando por fora,

Toda nua, ainda charrua

 

E depois lua

 

Não sei a quem me pertenço, ou se o diga, nas traseiras de uma lágrima de sémen em pedacinhos,

A igreja já fechou menino

A igreja e os peregrinos,

Pensei eu, que pensava que sabia pensar

Que acreditava, que quando alguém chorava, uma espingarda

Disparava, contra a boca do inferno, uma palavra

 

E de pedacinho de sémen em lágrimas em pedacinho de sémen em lágrimas, hoje sou,

Um queijo

 

Sou hoje um poema de mil páginas de sémen em lágrimas, sou uma cama alegre, de estrelas e de flores,

Sou hoje outro pedacinho de sémen, em lágrimas

Que às vezes a chuva não consegue molhar, e quando me toca, é tão leve e leve,

Como uma carta envenenada

Do correr de uma lebre ou do sorriso do mar

 

Sou um pedacinho de lágrimas em sémen, sou uma bala disparada

Do cano de uma espingarda,

Sim, eu. O poeta sem madrugada.

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