24 agosto 2025

que louco sou, que tolo o fui

 

uma lâmpada nunca será alguém, se um outro alguém não acariciar o interruptor e um outro alguém, injectar electrões numa rede vestida de cortinados,

uma lâmpada nunca será alguém, nem algoritmo cansado, se um dos seus filamentos de espuma e sumo, se danificarem

e a lâmpada lá está, enroscada num suporte de lâmpada

alagadinha, em frios suores de encarnada bruma

 

um barco que apita, que saltita sobre o mais pequenino sorriso de uma pétala adormecida,

em tua mão, meu amor

e o que dirão os meus leitores, o que dirão eles

meu amor, o que dirão

 

que louco sou, que tolo o fui

e que chato o serei, que a lâmpada só é feliz quando eu, acaricio, muito devagarinho, o silêncio do interruptor, maresia em delírio

o vazio,

ao longe um vidro quebrado, e partido

 

de uma abelha de sangue, poisada sobre a mesa

um pedaço de pão é resgado sobre a invisível maré de sono, dois ou três socalcos mais abaixo, um par de seios, e

um burro e uma carroça, tudo por

tudo porque nem o burro

tudo porque nem a carroça,

são de confiar

 

agora entendo porque às vezes a lâmpada não me quer alumiar, porque há sempre um vazio rio, subindo cada degrau da ausência, porque há sempre uma pedra, uma espada, um pedaço de aço

ao professor joão rocha, um abraço

e às vezes, nem nada há

 

nem há o aço, nem há o abraço

que cada pedra sabe o que lhe compete fazer, dentro deste complexo e cinzento viver, se cada roldana de sono é uma espada que espeta, e que às vezes, também mata

ladra, uns nasceram reis e outras, rainhas

uns são cães, outros tantos, cadelas

uns são socalcos, outros são vinhas

 

outras pedras são esmioladas, cada pedacinho um olhar sobre o rio, e cada fio sorrir deste doirado sol, que é veneno, e que alimenta

cada verbo, cada fotografia, sobre a vida

e de mão dada, com a poesia

 

e por fim temos as pedras enterradas, mas antes foram lançadas,

temos as pedras que nunca mais veremos, e depois

o que dirá a chuva, quando eu estou sentado,

sobre uma pedra, uma pedra fria e escura,

como a sílaba de cada noite, como o vento em cada madrugada, ou em cada dia

que quase nada, traduz o orvalho, que quase nada é cansaço, e depois foi enxada de luz e voltou a ser o aço,

pobre, ricaço

 

e hoje é o chefe desta merda toda (eu, francisco luís fontinha).

Sem comentários:

Enviar um comentário