uma lâmpada nunca será
alguém, se um outro alguém não acariciar o interruptor e um outro alguém,
injectar electrões numa rede vestida de cortinados,
uma lâmpada nunca será
alguém, nem algoritmo cansado, se um dos seus filamentos de espuma e sumo, se
danificarem
e a lâmpada lá está,
enroscada num suporte de lâmpada
alagadinha, em frios
suores de encarnada bruma
um barco que apita, que
saltita sobre o mais pequenino sorriso de uma pétala adormecida,
em tua mão, meu amor
e o que dirão os meus
leitores, o que dirão eles
meu amor, o que dirão
que louco sou, que tolo o
fui
e que chato o serei, que
a lâmpada só é feliz quando eu, acaricio, muito devagarinho, o silêncio do
interruptor, maresia em delírio
o vazio,
ao longe um vidro
quebrado, e partido
de uma abelha de sangue,
poisada sobre a mesa
um pedaço de pão é
resgado sobre a invisível maré de sono, dois ou três socalcos mais abaixo, um
par de seios, e
um burro e uma carroça,
tudo por
tudo porque nem o burro
tudo porque nem a
carroça,
são de confiar
agora entendo porque às
vezes a lâmpada não me quer alumiar, porque há sempre um vazio rio, subindo
cada degrau da ausência, porque há sempre uma pedra, uma espada, um pedaço de
aço
ao professor joão rocha,
um abraço
e às vezes, nem nada há
nem há o aço, nem há o
abraço
que cada pedra sabe o que
lhe compete fazer, dentro deste complexo e cinzento viver, se cada roldana de
sono é uma espada que espeta, e que às vezes, também mata
ladra, uns nasceram reis
e outras, rainhas
uns são cães, outros
tantos, cadelas
uns são socalcos, outros
são vinhas
outras pedras são
esmioladas, cada pedacinho um olhar sobre o rio, e cada fio sorrir deste
doirado sol, que é veneno, e que alimenta
cada verbo, cada
fotografia, sobre a vida
e de mão dada, com a
poesia
e por fim temos as pedras
enterradas, mas antes foram lançadas,
temos as pedras que nunca
mais veremos, e depois
o que dirá a chuva,
quando eu estou sentado,
sobre uma pedra, uma
pedra fria e escura,
como a sílaba de cada
noite, como o vento em cada madrugada, ou em cada dia
que quase nada, traduz o
orvalho, que quase nada é cansaço, e depois foi enxada de luz e voltou a ser o
aço,
pobre, ricaço
e hoje é o chefe desta
merda toda (eu, francisco luís fontinha).
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