23 agosto 2025

Que se o chão cinzento o quiser, amanhã será primavera, no primeiro orgasmo da manhã

 

No chão cinzento, onde se escondem as lágrimas do cinzeiro, olho o meu cigarro, nele poisado, e finjo que nem o conheço

Como cada página que leio, como cada gota de água que eu bebo, como cada flor quebrada, e que eu tento consertar, mas eu não consigo

 

Eu não consigo sonhar

Como cada poema semeado sobre o chão cinzento do alento, e do destemido orgasmo,

Quem nunca teve um, que lance a primeira pedra

 

Tenho medo, medo dos orgasmos, fingidos, adoro os orgasmos prometidos, enviados ao remetente,

E

Novamente,

Devolvidos, devolvidos à precedência

 

A fábrica da tia Ritinha, que deus a tenha, foi à falência

E uma primavera sem um orgasmo, é um outro orgasmo, sob as frias águas do danúbio, mas orgasmo, mas orgasmo que é orgasmo e que se preze, de o ser, não é dor é prazer

E nunca, nunca se esquece de apagar a luz depois de sair

 

Ela sentava-se, colocava os pés numa pequena bacia com água tépida, aos poucos ia-se desfazendo de todas as capas do livro da sua pele, começava a escrever  e no seu sexo uns pequenos sons graníticos, talvez sorrisos, talvez silêncios

Depois,

Gemia,

E dentro do espelho uma andorinha de espuma branquida, quase lua,

Quase, tão quase como a espuma do meu barbear, que é quase,

Nada,

Lhe sorria, e ela se vinha, se vinha na flor plantada no chão cinzento da alvorada

 

E no chão cinzento, onde habitam as serpentes venenosas e comestíveis apenas às terças e quintas, e no restantes dias,

Sabem a ranço,

Por motivos pessoais, hoje

Hoje não há poesia, e ouviam-se os cortinados, durante a noite, a acenar à lua, distância entre dois pontos, uma equação também, também só, também ausente, depois que a sanzala se vestiu de negro, e hoje

Porquê

 

O cinzeiro sorri, e percebo que toda a sua massa, sei lá eu qual é a massa de um cinzeiro, a única coisa que eu sei é que a gravidade é igual a nove vírgula oito metros por segundo quadrado,

Isso eu sabia, agora de orgasmos e de massa de um cinzeiro, que o peso… o raio que o parta, menino

Talvez um dia, talvez ontem, sempre que chovia, e sempre que se ouvia,

Porquê

 

E a vida é um carrossel, uns dias dá voltas, e tantas voltas, e tantos dias, sem dias, às voltas

E outras,

Está parada, quase morta, quase,

Também, quebrada,

E eu não a sei consertar,

Porque não consigo sonhar

 

Tantas sombras, milhares de léguas, depois

Um papagaio quase chuva, mas tão quase

Tão quase milagre,

 

Que se o chão cinzento o quiser, amanhã será primavera, no primeiro orgasmo da manhã.

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