No chão cinzento, onde se
escondem as lágrimas do cinzeiro, olho o meu cigarro, nele poisado, e finjo que
nem o conheço
Como cada página que leio,
como cada gota de água que eu bebo, como cada flor quebrada, e que eu tento
consertar, mas eu não consigo
Eu não consigo sonhar
Como cada poema semeado
sobre o chão cinzento do alento, e do destemido orgasmo,
Quem nunca teve um, que
lance a primeira pedra
Tenho medo, medo dos
orgasmos, fingidos, adoro os orgasmos prometidos, enviados ao remetente,
E
Novamente,
Devolvidos, devolvidos à
precedência
A fábrica da tia Ritinha,
que deus a tenha, foi à falência
E uma primavera sem um
orgasmo, é um outro orgasmo, sob as frias águas do danúbio, mas orgasmo, mas
orgasmo que é orgasmo e que se preze, de o ser, não é dor é prazer
E nunca, nunca se esquece
de apagar a luz depois de sair
Ela sentava-se, colocava
os pés numa pequena bacia com água tépida, aos poucos ia-se desfazendo de todas
as capas do livro da sua pele, começava a escrever e no seu sexo uns pequenos sons graníticos,
talvez sorrisos, talvez silêncios
Depois,
Gemia,
E dentro do espelho uma
andorinha de espuma branquida, quase lua,
Quase, tão quase como a
espuma do meu barbear, que é quase,
Nada,
Lhe sorria, e ela se
vinha, se vinha na flor plantada no chão cinzento da alvorada
E no chão cinzento, onde
habitam as serpentes venenosas e comestíveis apenas às terças e quintas, e no
restantes dias,
Sabem a ranço,
Por motivos pessoais,
hoje
Hoje não há poesia, e
ouviam-se os cortinados, durante a noite, a acenar à lua, distância entre dois
pontos, uma equação também, também só, também ausente, depois que a sanzala se
vestiu de negro, e hoje
Porquê
O cinzeiro sorri, e
percebo que toda a sua massa, sei lá eu qual é a massa de um cinzeiro, a única coisa
que eu sei é que a gravidade é igual a nove vírgula oito metros por segundo quadrado,
Isso eu sabia, agora de
orgasmos e de massa de um cinzeiro, que o peso… o raio que o parta, menino
Talvez um dia, talvez
ontem, sempre que chovia, e sempre que se ouvia,
Porquê
E a vida é um carrossel,
uns dias dá voltas, e tantas voltas, e tantos dias, sem dias, às voltas
E outras,
Está parada, quase morta,
quase,
Também, quebrada,
E eu não a sei consertar,
Porque não consigo sonhar
Tantas sombras, milhares
de léguas, depois
Um papagaio quase chuva,
mas tão quase
Tão quase milagre,
Que se o chão cinzento o
quiser, amanhã será primavera, no primeiro orgasmo da manhã.
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