Quase vinte e três horas,
um banho rápido, depois um copo de leite, e assim termina parte do meu dia
Penso em ti pela última
vez, e peço que seja já dia, com sol
Deixei de falar com os
poucos amigos que tinha, que talvez nunca os tivesse tido, depois penso
naqueles que morreram, homens, mulheres, seres fantásticos que me influenciaram
em tudo, da vida que tive
A que quis ter e a que
não quis ter
Leio muito, muita poesia,
estou a apaixonar-me pelo surrealismo, e meu deus, finalmente uma luz ao fundo
do túnel
Um caminho que me levará
até ao fim
A partir de agora apenas
vou ler Cesariny, Cruzeiro Seixas, AL Berto, Pacheco e o Lobo Antunes
Fascinam-me estes gajos
E mesmo assim penso pela
última vez em ti, e mesmo assim daqui a pouco será dia, deixará de haver
silêncio, da luz virá um pequeno sorriso, talvez um fio de adeus, talvez uma
vírgula esquecida sobre a mesinha-de-cabeceira, talvez depois da chuva, depois
da ponte, depois
Depois a preta que me rebolava
no chão junto ao altar de nossa senhora, a troco de uns míseros escudos,
Minha senhora, o menino
tem a vida cortada
E claro que sim, desde
que me lembro, que havia sempre uma luz que vinha do tejo, entrava nos meus
olhos, e zás
Um petroleiro em finos
apitos, pelo corredor, às vezes deixavam um rasto de sangue, lutavam em sim, e
havia sempre um
Que morria,
E havia sempre um outro,
Que sorria
E havia sempre uma
espingarda que disparava, migalhas, coisas sem nexo, como um alguidar, dois
tremoços e uma cabeça de alho
O gato passa-se e às
vezes até parece que fuma coisas, porque ele vê tanta coisa, e lê, lê tanta
coisa
Um elefante vigem
engravidou uma formiga, nada de anormal, pois hoje já tudo é possível
Só não sei se a formiga terá
estrutura para tal gravidez, o que
O que a terei de a
dimensionar no Ansys
A estrutura, não a
formiga
Depois era o cheiro a
terra queimada, depois da chuva
Depois era o perfume do
capim, ainda vestido de cacimbo
Depois sentava-me no
cais, e conversava com os barcos.
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