21 agosto 2025

Quase que enlouquecia

 

O Herberto Helder quase que enlouquecia,

Eu, enlouqueço, e dos mais belos poemas do Herberto, para mim, “a última bilha de gás durou dois meses e três dias”

 Imaginem o sufoco de alguém que quer suicidar-se com gás, mas não vendem gás a retalho, e o tipo nem dinheiro tem para comprar a bilha do gás…

Acontece, muitas vezes.

Até eu, se eu quisesse suicidar-me com gás, nem para uma bilha,

Quanto mais para o retalho.

Fingimos, então.

 

Fingimos que as flores são belas, quando as flores são belas merda,

Fingimos que a lua é o Simplício no momento exacto em defecar à janela, quando nem o Simplício e tão pouco a janela, existem, porque são agora criação minha,

Fingimos que as estrelas são colmeias, quando as abelha são kamikazes em busca do sol, e claro

Fingimos, então, meu senhor

 

Fingimos que as pedras lançadas não aleijam e são os mais belos beijos do universo, porque claro, estamos a fingir

E fingimos que a poesia é bela e é a nossa alma, quando a poesia é uma bela merda, e alguns poetas, merdas,

Belas.

 

Porque fingimos então. Fingimos que temos pão, e às vezes, temos lágrimas, às vezes temos tanto pão e, no entanto,

Valia mais ter ficado com as lágrimas.

 

Fingimos que há um comboio na minha mesa-de-cabeceira, fingia que saltava do muro

E, zás

Dentro do alguidar, e éramos tão felizes, porque

 

Porque não tínhamos nada, zero. E o comboio lá anda em pequenos círculos sobre a lua, uma destas noites vi-o a erguer-se da mesa-de-cabeceira, e aos pouquinhos,

 

Subia, subia, e perdeu-se no céu.

Porque o miúdo tinha acabado de cortar o cordel que o prendia ao mármore frio da dita mesinha-de-cabeceira, ouvia um apito,

Piu, piu piu

O juiz ficou sem o peru. Numa noite tão noite, que à janela apenas espreitavam os coxos e os aleijados, todos os outros,

Iam lá bater com os costados.

 

A madrinha era virgem, falamos de astrologia, claro, quanto ao resto já quase toda a calçada conhecia as coxas da madrinha,

 

E mesmo assim, não era nada de se deitar fora, já vi pior, lamenta-se ele

Descobri ontem que o Cesariny era conhecido em Lisboa como o poeta dos urinóis, pois claro,

Claro, foi um dia tão claro, e tão

Raso.

 

Soube também ontem, que um amigo do Herberto colocava as mãos na cabeça ao nível das orelhas, abanava-a, e gritava duas vezes,

Esta cabeça não é minha.

Esta cabeça não é minha.

De quem é, então, esta cabeça que não é minha?

 

Que nas minhas veias não corre sangue, corre outro fluído qualquer, mas sangue,

Não.

Que o primeiro a entrar foi o último a sair, desligou o altar, e claro

Espera-o na esquina do Zézé pitadas.

O orgasmo é prazer, tal como o ler e o foder, o poeta do amor, um tal de Pablo, Pablo Neruda.

Já gostei muito, mas começo a odiá-lo.

 

Que o cansaço é tanto, que o pouco é tão belo, claro,

Pois.

Ele é louco.

Ele é tão pouco.

E claro, pois

Tolo.

 

Agora, carrego bilhas, às vezes, de gás. E cada bilha é uma sílaba vestida de alguns centímetros cúbicos de gás, mas não é um gás qualquer,

Este é apenas para ricos, e só esses o podem experimentar.

E eu carrego-o e sinto-me tão feliz, tão poeta

Útil,

Que procura nas ruínas o mais pequenos fio de cabelo. Depois chovia, e enlouquecia

 

Dentro do alguidar.

Sem comentários:

Enviar um comentário