O Herberto Helder quase que
enlouquecia,
Eu, enlouqueço, e dos
mais belos poemas do Herberto, para mim, “a última bilha de gás durou dois
meses e três dias”
Imaginem o sufoco de alguém que quer
suicidar-se com gás, mas não vendem gás a retalho, e o tipo nem dinheiro tem
para comprar a bilha do gás…
Acontece, muitas vezes.
Até eu, se eu quisesse
suicidar-me com gás, nem para uma bilha,
Quanto mais para o
retalho.
Fingimos, então.
Fingimos que as flores
são belas, quando as flores são belas merda,
Fingimos que a lua é o Simplício
no momento exacto em defecar à janela, quando nem o Simplício e tão pouco a
janela, existem, porque são agora criação minha,
Fingimos que as estrelas
são colmeias, quando as abelha são kamikazes em busca do sol, e claro
Fingimos, então, meu
senhor
Fingimos que as pedras
lançadas não aleijam e são os mais belos beijos do universo, porque claro,
estamos a fingir
E fingimos que a poesia é
bela e é a nossa alma, quando a poesia é uma bela merda, e alguns poetas,
merdas,
Belas.
Porque fingimos então. Fingimos
que temos pão, e às vezes, temos lágrimas, às vezes temos tanto pão e, no
entanto,
Valia mais ter ficado com
as lágrimas.
Fingimos que há um
comboio na minha mesa-de-cabeceira, fingia que saltava do muro
E, zás
Dentro do alguidar, e éramos
tão felizes, porque
Porque não tínhamos nada,
zero. E o comboio lá anda em pequenos círculos sobre a lua, uma destas noites
vi-o a erguer-se da mesa-de-cabeceira, e aos pouquinhos,
Subia, subia, e perdeu-se
no céu.
Porque o miúdo tinha
acabado de cortar o cordel que o prendia ao mármore frio da dita
mesinha-de-cabeceira, ouvia um apito,
Piu, piu piu
O juiz ficou sem o peru. Numa
noite tão noite, que à janela apenas espreitavam os coxos e os aleijados, todos
os outros,
Iam lá bater com os
costados.
A madrinha era virgem,
falamos de astrologia, claro, quanto ao resto já quase toda a calçada conhecia
as coxas da madrinha,
E mesmo assim, não era
nada de se deitar fora, já vi pior, lamenta-se ele
Descobri ontem que o
Cesariny era conhecido em Lisboa como o poeta dos urinóis, pois claro,
Claro, foi um dia tão
claro, e tão
Raso.
Soube também ontem, que
um amigo do Herberto colocava as mãos na cabeça ao nível das orelhas, abanava-a,
e gritava duas vezes,
Esta cabeça não é minha.
Esta cabeça não é minha.
De quem é, então, esta cabeça
que não é minha?
Que nas minhas veias não
corre sangue, corre outro fluído qualquer, mas sangue,
Não.
Que o primeiro a entrar
foi o último a sair, desligou o altar, e claro
Espera-o na esquina do Zézé
pitadas.
O orgasmo é prazer, tal
como o ler e o foder, o poeta do amor, um tal de Pablo, Pablo Neruda.
Já gostei muito, mas
começo a odiá-lo.
Que o cansaço é tanto,
que o pouco é tão belo, claro,
Pois.
Ele é louco.
Ele é tão pouco.
E claro, pois
Tolo.
Agora, carrego bilhas, às
vezes, de gás. E cada bilha é uma sílaba vestida de alguns centímetros cúbicos
de gás, mas não é um gás qualquer,
Este é apenas para ricos,
e só esses o podem experimentar.
E eu carrego-o e sinto-me
tão feliz, tão poeta
Útil,
Que procura nas ruínas o
mais pequenos fio de cabelo. Depois chovia, e enlouquecia
Dentro do alguidar.
Sem comentários:
Enviar um comentário