28 agosto 2025

O grito

 

Um grito, um outro grito, frito

Se o rio dos teus seios, aflito, esse depois do arvorar, antes

Que o grito, grite

E morra aos gritos

Aflitos, nós todos, os fios positivos, os fios negativos

O eclipse quase, quase a acordar na copa dos plátanos, aflitos

Eles estavam aflitos, os outros, amanhã, estarão, também aflitos

E o meu grito, aflito

De frio, morre na boca de um grito

 

Se o rio dos teus seios, grita, o grito silêncio do sonho mais sonhado do corpo quase água, as pedras que voam, que se beijam, e que

Às vezes, tantas vezes, fodem também as vidraças

Eu cá estou, desde ontem, ainda o mar era apenas um pedacinho de pele colocado sobre a fimbria manhã de uma flor, e que grito

Aquela medusa que se escondia debaixo da mesa, chamavam-na

E ela,

O que foi agora

Que o rio dos teus seios, hoje

Que o livro que leio, é falso

Aliás, não sei porquê o meu grito

De neste momento, reler e ler, O Mário de Sá-Carneiro, ler

E pergunto-me,

Porque daria ele um tiro nos miolos, coitado, tão novinho… vinte e seis anos, e muita poesia

 

E pum

 

Tão triste o grito, tão triste o vento que grita, e triste tão

A fogueira da seara, entre as coxas de uma duna, quase cinza, as lágrimas de uma maçã, quando uma qualquer Eva, a come

E depois cospe as pevides contra o cortinado do abismo, tantas eram a migalhas sobre a mesa

E a mesa sobre outra mesa, dispo-a e grito

Sentido o grito da chuva, depois do grito,

 

Pum.

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