04 agosto 2025

O carrasco

O carrasco me leva, ata-me antes que eu desfaleça, as mãos e os pés,

Coloca-me um pano negro nos olhos, e começo a ver um ponto luminoso, lá longe

Tão longe de onde eu vim, e tão pertinho,

Para onde eu vou.

 

São tantos os barcos na minha vida, e dos mares imaginados, e sonhados,

E desenhados sobre a espuma de um sorriso,

Começo a sentir uma leve dor no tornozelo direito, a corda invisível que o aprisiona, aperta-o e sinto-o

Em cada madrugada sem ler.

 

O monte desce a calçada esguia, perfumada até à esquina de uma árvore em desejo, o pastor e o seu rebanho, tantos são os poemas amorfos e coloridos de uma guitarra,

Cada milímetro da pele do sono é um guindaste entre condomínios encerrados, pelo vento, pela chuva,

E pelos gritos da alvorada.

 

E o carrasco me sorri, e o carrasco, sou eu mesmo, o poeta deste livro, o olvido destino da última lágrima no silêncio de uma andorinha, e se amanhã chover

 

Serei eu a primeira erva fresca do dia…

E a última rosa do teu olhar!

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