O que restou, da noite de ontem, o que ficou na tua algibeira, enquanto fumo e olho uma navalha que foi tua, dois cachimbos oferecidos por ti, quase antes de te ergueres dessa cadeira e seguires a tua viagem, junto à lareira, e um deles utilizo-o, às vezes, durante a noite
O que restou, de nós,
pássaros que voávamos sobre o silêncio de um sonho, pássaros que éramos, e que
fomos
O que resta, de nós
Duzentos e seis ossos que
tive de catalogar durante mais de uma semana, os teus ossos
E no final, ainda
berraste comigo
Porque deixei cair a
pedra de haxe à gateira, talvez por descuido meu, talvez estivesse a pensar em
alguém, talvez
Talvez que apenas tu
sabias os meus segredos, me ouvias, em tantas e tantas noites,
Mesmo aquelas em que
quase minuto a minuto, me interrogavam
- então o senhor Fernando
E tu, anda a voar
E todos voávamos caralho,
porque não
Claro que não, dizia o
“leirão”, o comunista e intelectual cá do burgo, diga-se, escreva-se
Que horas mais tarde, eu
ia até à casa dele, a Maria, dormia ou trabalhava
Mais tarde,
Fingia que não me via, e
eu olhava-o e escutava-a, porque as lágrimas também têm voz, corpo, e às vezes,
às vezes…
Mas olhava o quê?
Enquanto eu adorava um
cadáver, que quase nunca sabia, se estava vivo, se estava morto
- estás aí gomes, e claro
que ainda estava, sentia-o pelo ranger dos ossos
Mais parecia às vezes a
garota trapezista por quem na minha adolescência me apaixonei, no entanto
Ele ainda se mexia, ainda
conseguia lá bem do mais profundo oceano dos seus olhos, eu, ver-lhe os olhos
O senhor Fernando, esse
Que um dia me chamou e
quase que de bom som, ouve lá pá
- isto tem de parar nunca
sei quando é dia, quando é noite
Claro pai, é como eu
Sabes, às vezes também
penso que o dia de ontem foi igual ao de hoje, e amanhã
- é da morfina Luís
aquela merda é pior do que a heroa
Foda-se, acreditava eu,
que ele um dia seria o padrinho de um filho meu,
O “leirão” ó Chiquinho
E claro, já estava
bêbado, nas restantes alturas
Luís aquela gaja está a
galar-te olha
O que ficou na algibeira
deste jardim, que agora quando lá passeio me dá comichão, arrepio-me, não sei
Olhe menino, não se
esqueça das três drageias, antes
Ou era depois,
O “gijon”
- ó Fontinha vale mais
sermos miseráveis como somos os dois
Sim, diz,
Do que ricos e entubados
na urgência de Vila Real, depois vinha de táxi, estacionava junto à casa do
“leirão”, escondia-se, o taxista desesperava, o “gijon” já dormia, e o taxista
Sobe as escadas, bate à
porta, a dona Silvia já andava no quinto sono, o “leirão” tinha acabado de
regressar do outro lado do silêncio e oceano
A dona Sílvia abre, o
taxista que lhe pagasse o frete a dona Sílvia que não podia ser
Pois o meu menino já
dorme há algum tempo, o taxista rompe quarto adentro, levanta a roupa
E lá estava o menino de
sua mãe, o nosso Augusto Saúl.
O “gijon” tinha fodido
mais um camelito, como ele dizia.
A estrada tinha curvas,
tantas quantas as andorinhas da primavera, a cila dava-nos boleia o “leirão”
insultava-a
- és uma fascista de merda
Sou?
Parava o carro
repentinamente, “leirão” sai do meu carro, se eu sou fascista não vais no meu
carro, o “leirão” em silêncio e diplomaticamente, saía e caminhava estrada
afora, e ainda hoje talvez ainda hoje ande perdido entre estradas, e noites
o gomes, esse, que anda
aqui desde a primeira linha, contava-me a história de como tinha conhecido a
sua maria, eu ouvia, às vezes, tinha sono
Não, não porque a
história não seja linda, de amor, como são todas as histórias de amor, não,
nada disso
Mas de cada vez que
fumávamos um charro, lá vinha a maria, o Luisinho
Ai o Carlitos,
Eu ouvia, claro, como ele
me ouvia, como quando lhe disse que tinha acabado de saber que o meu pai não
tinha mais hipótese
O gomes, tem calma pá
Porque correu mal com o
teu pai, não quer dizer que seja o mesmo com a tua mãe
Claro que não gomes, e
ficamos a conversar sobre coisas banais, coisas, nossas
A minha mãe lá estava, esperava
na mortuária que a levassem e nós
Nada, meu rapaz.
Que tens o sorriso mais
lindo do cemitério, verdade, e escrevo no meu peito,
Quando passo por ti:
Enrola lá um ó gomes.
O “leirão”, ó burro, o gomes
exaltava-se chateava-se, zangava-se,
Depois,
Quase que se beijavam.
O gomes refilava, que era
um burro, que era mais do que nosso
- pai
Estás fodido, achas ó
gomes? E se forem dois?
Aí meu filho, estás
refodido, literalmente, comecei a tremer.
Que isto e aqueloutro,
que por isso
- por isso é que sou
filho do Mário burro
E que não, acreditava o
“leirão” no amor de uma abelha e de uma doutora de letras, no entanto
No bar “o américo” o
queijeiro, mais conhecido do que o primeiro beijo da alvorada, tentava fazer-me
acreditar que se olhasse profundamente e devidamente concentrado para a parede,
atravessava-a e depois
Mais tarde, saía pela porta
da caixa de crédito agrícola, que era ao lado. Eu ficava pasmado, foda-se zé
como o fizeste?
É a mente, a mente,
Foda-se ó gomes este gajo
está maluco,
Olha-me este
O zé Fernandes é maluco,
Claro que sim zé,
acredito, se quiseres até vou contigo, e o zé passeava-se pelo jardim, puxava
uma garrafa de oxigénio como se trouxesse um cão pela trela, sentava-se junto a
mim, puxava de um cigarro
- ó zé não devias fumar
Eu consigo pá tenho tudo
controlado, e claro, que sim, tempo depois, é só uma questão de mente,
E foi o pai do zé o
primeiro homem, não a ir à lua, mas a vender televisões de fabrico made in
URSS, isto é verdade e não é ficção, que se investigue, e depois o zé
Evaporou-se, e
esqueceu-se de fechar a porta que tinha desenhado com o olhar numa das nossas
tantas noites de noites, em que falávamos de tudo, nunca de todos, gostávamos
de Proust, eu gostava de falar com o “leirão” sobre Tolstói, Gacia Marquez,
Milan Kundera, AL Berto e Pacheco,
O Vítor samora puxava-lhe
uma perna, depois o irmão
O mosca e braulio, também
ajudava, e o “leirão” sentado no banco da frente do meu carro
- Chiquinho eu não saio
daqui
O gomes,
- foda-se este gajo é
sempre a mesma merda,
Depois outra voz
- cala-te ó burro,
E quando o Carlos Gomes
acabava de fazer o charro, já eram quase sete da manhã, alguém corria apressado
até ao café da paz para apanhar o autocarro, durante a noite, deixávamos aqui e
ali as nossas sombras, os nossos medos, mágoas, falhanços, erros cometidos
apenas por nós, apenas por nós
E que as nossas famílias
o pagaram bem caro, por todas as nossas loucuras,
E que nunca percas esse
lindo sorriso, meu querido.
Hoje, hoje sei que me
ouvias.
Francisco Luís Fontinha
Sem comentários:
Enviar um comentário