01 junho 2025

O que restou, da noite de ontem, o que ficou na tua algibeira, enquanto fumo e olho uma navalha que foi tua

O que restou, da noite de ontem, o que ficou na tua algibeira, enquanto fumo e olho uma navalha que foi tua, dois cachimbos oferecidos por ti, quase antes de te ergueres dessa cadeira e seguires a tua viagem, junto à lareira, e um deles utilizo-o, às vezes, durante a noite

O que restou, de nós, pássaros que voávamos sobre o silêncio de um sonho, pássaros que éramos, e que fomos

O que resta, de nós

Duzentos e seis ossos que tive de catalogar durante mais de uma semana, os teus ossos

E no final, ainda berraste comigo

Porque deixei cair a pedra de haxe à gateira, talvez por descuido meu, talvez estivesse a pensar em alguém, talvez

Talvez que apenas tu sabias os meus segredos, me ouvias, em tantas e tantas noites,

Mesmo aquelas em que quase minuto a minuto, me interrogavam

- então o senhor Fernando

E tu, anda a voar

E todos voávamos caralho, porque não

Claro que não, dizia o “leirão”, o comunista e intelectual cá do burgo, diga-se, escreva-se

Que horas mais tarde, eu ia até à casa dele, a Maria, dormia ou trabalhava

Mais tarde,

Fingia que não me via, e eu olhava-o e escutava-a, porque as lágrimas também têm voz, corpo, e às vezes, às vezes…

Mas olhava o quê?

Enquanto eu adorava um cadáver, que quase nunca sabia, se estava vivo, se estava morto

- estás aí gomes, e claro que ainda estava, sentia-o pelo ranger dos ossos

Mais parecia às vezes a garota trapezista por quem na minha adolescência me apaixonei, no entanto

Ele ainda se mexia, ainda conseguia lá bem do mais profundo oceano dos seus olhos, eu, ver-lhe os olhos

O senhor Fernando, esse

Que um dia me chamou e quase que de bom som, ouve lá pá

- isto tem de parar nunca sei quando é dia, quando é noite

Claro pai, é como eu

Sabes, às vezes também penso que o dia de ontem foi igual ao de hoje, e amanhã

- é da morfina Luís aquela merda é pior do que a heroa

Foda-se, acreditava eu, que ele um dia seria o padrinho de um filho meu,

O “leirão” ó Chiquinho

E claro, já estava bêbado, nas restantes alturas

Luís aquela gaja está a galar-te olha

O que ficou na algibeira deste jardim, que agora quando lá passeio me dá comichão, arrepio-me, não sei

Olhe menino, não se esqueça das três drageias, antes

Ou era depois,

O “gijon”

- ó Fontinha vale mais sermos miseráveis como somos os dois

Sim, diz,

Do que ricos e entubados na urgência de Vila Real, depois vinha de táxi, estacionava junto à casa do “leirão”, escondia-se, o taxista desesperava, o “gijon” já dormia, e o taxista

Sobe as escadas, bate à porta, a dona Silvia já andava no quinto sono, o “leirão” tinha acabado de regressar do outro lado do silêncio e oceano

A dona Sílvia abre, o taxista que lhe pagasse o frete a dona Sílvia que não podia ser

Pois o meu menino já dorme há algum tempo, o taxista rompe quarto adentro, levanta a roupa

E lá estava o menino de sua mãe, o nosso Augusto Saúl.

O “gijon” tinha fodido mais um camelito, como ele dizia.

A estrada tinha curvas, tantas quantas as andorinhas da primavera, a cila dava-nos boleia o “leirão” insultava-a

- és uma fascista de merda

Sou?

Parava o carro repentinamente, “leirão” sai do meu carro, se eu sou fascista não vais no meu carro, o “leirão” em silêncio e diplomaticamente, saía e caminhava estrada afora, e ainda hoje talvez ainda hoje ande perdido entre estradas, e noites

o gomes, esse, que anda aqui desde a primeira linha, contava-me a história de como tinha conhecido a sua maria, eu ouvia, às vezes, tinha sono

Não, não porque a história não seja linda, de amor, como são todas as histórias de amor, não, nada disso

Mas de cada vez que fumávamos um charro, lá vinha a maria, o Luisinho

Ai o Carlitos,

Eu ouvia, claro, como ele me ouvia, como quando lhe disse que tinha acabado de saber que o meu pai não tinha mais hipótese

O gomes, tem calma pá

Porque correu mal com o teu pai, não quer dizer que seja o mesmo com a tua mãe

Claro que não gomes, e ficamos a conversar sobre coisas banais, coisas, nossas

A minha mãe lá estava, esperava na mortuária que a levassem e nós

Nada, meu rapaz.

Que tens o sorriso mais lindo do cemitério, verdade, e escrevo no meu peito,

Quando passo por ti:

Enrola lá um ó gomes.

 

O “leirão”, ó burro, o gomes exaltava-se chateava-se, zangava-se,

Depois,

Quase que se beijavam.

O gomes refilava, que era um burro, que era mais do que nosso

- pai

Estás fodido, achas ó gomes?  E se forem dois?

Aí meu filho, estás refodido, literalmente, comecei a tremer.

Que isto e aqueloutro, que por isso

- por isso é que sou filho do Mário burro

E que não, acreditava o “leirão” no amor de uma abelha e de uma doutora de letras, no entanto

No bar “o américo” o queijeiro, mais conhecido do que o primeiro beijo da alvorada, tentava fazer-me acreditar que se olhasse profundamente e devidamente concentrado para a parede, atravessava-a e depois

Mais tarde, saía pela porta da caixa de crédito agrícola, que era ao lado. Eu ficava pasmado, foda-se zé como o fizeste?

É a mente, a mente,

Foda-se ó gomes este gajo está maluco,

Olha-me este

O zé Fernandes é maluco,

Claro que sim zé, acredito, se quiseres até vou contigo, e o zé passeava-se pelo jardim, puxava uma garrafa de oxigénio como se trouxesse um cão pela trela, sentava-se junto a mim, puxava de um cigarro

- ó zé não devias fumar

Eu consigo pá tenho tudo controlado, e claro, que sim, tempo depois, é só uma questão de mente,

E foi o pai do zé o primeiro homem, não a ir à lua, mas a vender televisões de fabrico made in URSS, isto é verdade e não é ficção, que se investigue, e depois o zé

Evaporou-se, e esqueceu-se de fechar a porta que tinha desenhado com o olhar numa das nossas tantas noites de noites, em que falávamos de tudo, nunca de todos, gostávamos de Proust, eu gostava de falar com o “leirão” sobre Tolstói, Gacia Marquez, Milan Kundera, AL Berto e Pacheco,

O Vítor samora puxava-lhe uma perna, depois o irmão

O mosca e braulio, também ajudava, e o “leirão” sentado no banco da frente do meu carro

- Chiquinho eu não saio daqui

O gomes,

- foda-se este gajo é sempre a mesma merda,

Depois outra voz

- cala-te ó burro,

E quando o Carlos Gomes acabava de fazer o charro, já eram quase sete da manhã, alguém corria apressado até ao café da paz para apanhar o autocarro, durante a noite, deixávamos aqui e ali as nossas sombras, os nossos medos, mágoas, falhanços, erros cometidos apenas por nós, apenas por nós

E que as nossas famílias o pagaram bem caro, por todas as nossas loucuras,

 

E que nunca percas esse lindo sorriso, meu querido.

Hoje, hoje sei que me ouvias.

 

 

Francisco Luís Fontinha

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