09 junho 2025

E quando morrer a vagina, o que será da minha vida?

 

Se a minha mão, ouvisse a tua voz

Se a tua voz escrevesse na minha mão, qualquer coisa, semeada

Uma palavra, uma vírgula

Ou até um final ponto

Depois o paragrafo envergonhado, nos teus seios de pergaminho silêncio

Uma esmeralda que declama AL Alberto

Um qualquer AL Berto, que ouve na escuridão da noite

Um tal de Fontinha, coitado dele, coitado (diria o senhor Álvaro de Campos)

Um tal de poeta também às vezes de esmeralda, ou outras tantas vezes

O poema quase na oogâmica bissectriz da tua vagina, há uma fogueira neste poema, há uma também outra vírgula, e outro mosquito que sobrevoa a escuridão de um beijo

Um raboto que não sei quem é, que nunca o vi, que apetece comer depois do almoço, depois da jangada descer o rio

 

Oiço os gemidos de um gameta desesperado por encontrar uma lâmina de sémen, ao fundo do corredor, quatro janelas para o mar, o louco pergunta-me as horas, eu espero o carteiro, há sobre uma mesa de pedra-pomes um casebre, uma porta de fechadura apertadinha

Que quando cai a noite,

Vai até ao mar

 

E desce da clareira madrugada; deus.

O vinho quase água, a água pertence agora ao medíocre sono da primeira lágrima da manhã, um cão late latinamente sobre o fino escuro olhar da vírgula, o ponto final

 

Deus o que me quer, pergunto à sombra, percorro cada sílaba deste corpo, quase em espuma

E este poema está a ficar uma autêntica merda, mas há quem goste da minha merda, que se diga

Esta escrita vaginal, cubica, ausente de um ponteiro que se erga da outra margem do rio,

 

Um barco em cio, o cio, um fio adormecido no rio, e se o rio o quiser

Ele saberá qual é a primeira janela aberta, depois da chuva ser também uma vírgula na serpente do meu corpo

A morte,

E quando morrer a vagina, o que será da minha vida?

 

Do meu corpo.


(isto é ou não é, poesia? ou será uma merda como toda a gente acha covardemente)

Sem comentários:

Enviar um comentário