21 junho 2025

a sebenta

 

a sebenta morre na mão de quem a escreveu, a caneta que escreveu na sebenta, corre montanha acima, sem saber se nos lábios de uma abelha, se na escuridão de uma portada, mal fechada, na dita e escrita,

a palavra

regressa à noite, a lâmina de fatiar o desejo

 

o que faço, quase ninguém o quer fazer

e, no entanto, dizem que é muito pouco

quase mágoa a escuridão de uma flor que procura o mar, que se veste de barco

e também tal como a abelha, nos lábios de uma abelha, a serpente

serpenteada, que sobe a árvore e olha ao longe,

um rio de espuma e dois seios ensanguentados de nuvem amanhecer

 

e a sebenta olha tudo isto, e à sua volta, um poeta chora no silêncio de uma palhota, o capim é o milagre depois de descer a alvorada, o cansaço de mais um dia, o silêncio que se ouve a sete léguas de destino, e talvez já seja dia, e talvez seja sempre dia

no coração da sebenta

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