21 maio 2025

Quis o destino

Quis o destino que este barco nascesse gajo, que foi preciso muito aço, muita mão-de-obra, barata, ao preço da chuva, que muito em breve, será taxada. Mas este barco era tão tolo, que às vezes, que às vezes sonhava, que um dia, que um dia,

Voava.

Sabem lá vossemecês o que é voar, se apenas sois barcos, e de barcos percebo alguma coisa, mais do que de carros, e, no entanto, o poeta que escreve esta treta, é quase engenheiro, mecânico,

Ah, as estruturas, o corpo, na verdade, tudo, até deus, é composto por uma estrutura, que sustenta o corpo, no caso humano.

Imaginem uma ponte. Olhem-na friamente como se fosse um dia de neblina,

Depois, depois fechem os olhos

E imaginem,

Imaginem como será o declínio daquela obra de arte. Mas estávamos a falar de barcos, e deixamos as estruturas para uma outra aula, ou conversa de café.

Havia um macaco que todas as madrugadas, quase à mesma hora, defecava no zinco do meu galinheiro. Às vezes, quando ainda era só um barquinho, colocava a âncora na fina quadricula do arame,

E olhava as pombas,

Tínhamos galinhas, havia algumas mangueiras no quintal, e de vez em quando, ofereciam-me um papagaio em papel.

Nunca lhes perguntei o nome. Em cada cor, eu via uma alvorada misturada de estrelas e de fadas e de espingardas, quase tão parvas, como parvas,

Eram as mangueiras do meu quintal e parvo, era também o meu chapelhudo.

Depois foi o vento que o destino lançou contra o Outono, as folhas, aos poucos, esconderam-se em cada pedacinho da casa, depois chovia, depois

Depois, rezava e pedia

Vamos todos sorrir. Sorriam, porque eles não gostam de sorrisos.

E eu também sorria, o que devia eu fazer…

Também sorrir.

Fingir.

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