16 abril 2025

Visto-me de ti neste sótão quase lua

Visto-me de ti neste sótão quase lua, quase mar

Luz nos teus olhos enquanto fumas e contemplas o monte da cunha,

Nasce o sol nos teus seios, é madrugada nos teus lábios, e sinto as tuas mãos à minha volta, abraças-me, e

E olho o sul desejo de uma amêndoa.


Visto-me de ti, meu amor, visto-me de ti e te confesso que já estou um pouquinho,

De quase noite,

Fartinho

De tanto livro,

De tanta coisa que eu pensava que eram apenas palavras,

Milhões de quilos e de tetraquilos,

Do cosmos e da ventura flor que subia as escadas,

Depois de a maré,

Ser gente.



E se for gente, tudo bem, não se mexe na coisa

Porque lá está, milhões de tetraquilos e megabytes de madeira,

Porque a lareira é precisa, está frio, meu amor,

Está frio nos tetraquilos de quilos,

Milhões de pedras apaixonadas, biliões de espermatozóides, todos eles,

Falsos poetas, como eu.


Ser gente também é sonho, também é furar uma parede com um berbequim,

E do outro lado,

A despensa dispara sobre a alvorada, uma lengalenga,

Ninguém percebe, ninguém sabe porque a mula da Joaquina dou um coice no senhor Alfredo Morais.

O vidro da janela do quarto, acaba de cair sobre uma mesa de matraquilhos,

Um, está a subir,

O outro,

Nem sobe,

Nem desce,

E quando lhe perguntam porque morreu o gato da senhora Adosinda, responde que não sabe,

Juro por deus, meritíssimo Juiz desta comarca…


Visto-me de ti, e confesso que sou quase tu, mesmo que as nossas massas e centros de massa, e trigémeos depois do jantar,

Sei que pertenço ao jantar da noite anterior,

Sei que estou vestido de ti, não entendendo muito bem, estes estranhos calores que sinto, e que ontem…

Não sentia,

Nem sabia,

Porque morreu o gato da minha tia,

Minha tia coitadinha, minha tia Adosinda. 


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