Visto-me de ti neste sótão quase lua, quase mar
Luz nos teus olhos enquanto fumas e contemplas o monte da cunha,
Nasce o sol nos teus seios, é madrugada nos teus lábios, e sinto as tuas mãos à minha volta, abraças-me, e
E olho o sul desejo de uma amêndoa.
Visto-me de ti, meu amor, visto-me de ti e te confesso que já estou um pouquinho,
De quase noite,
Fartinho
De tanto livro,
De tanta coisa que eu pensava que eram apenas palavras,
Milhões de quilos e de tetraquilos,
Do cosmos e da ventura flor que subia as escadas,
Depois de a maré,
Ser gente.
E se for gente, tudo bem, não se mexe na coisa
Porque lá está, milhões de tetraquilos e megabytes de madeira,
Porque a lareira é precisa, está frio, meu amor,
Está frio nos tetraquilos de quilos,
Milhões de pedras apaixonadas, biliões de espermatozóides, todos eles,
Falsos poetas, como eu.
Ser gente também é sonho, também é furar uma parede com um berbequim,
E do outro lado,
A despensa dispara sobre a alvorada, uma lengalenga,
Ninguém percebe, ninguém sabe porque a mula da Joaquina dou um coice no senhor Alfredo Morais.
O vidro da janela do quarto, acaba de cair sobre uma mesa de matraquilhos,
Um, está a subir,
O outro,
Nem sobe,
Nem desce,
E quando lhe perguntam porque morreu o gato da senhora Adosinda, responde que não sabe,
Juro por deus, meritíssimo Juiz desta comarca…
Visto-me de ti, e confesso que sou quase tu, mesmo que as nossas massas e centros de massa, e trigémeos depois do jantar,
Sei que pertenço ao jantar da noite anterior,
Sei que estou vestido de ti, não entendendo muito bem, estes estranhos calores que sinto, e que ontem…
Não sentia,
Nem sabia,
Porque morreu o gato da minha tia,
Minha tia coitadinha, minha tia Adosinda.
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