17 abril 2025

lágrima

havia uma lágrima na despedida do rio, era tão sentida, era tão sem jeito

era tão um corpo em cio, um corpo mal feito, em pedra

quase água,

no final da tarde, descia a montanha, e sentava-se junto ao parque infantil da aldeia

era tão pequenina, esta pobre lágrima, esta linda menina.


havia uma lágrima no olhar da gente, uma lágrima doente

e contente,

havia uma lágrima na face oculta da lua,

estava escuro, estava silêncio

nas mãos do rio, e nos cabelos do incenso

havia uma lágrima, tão fina e tão comestível

que um dia, um menino,

pegou com jeitinho, na lágrima, e semeou-a

nos seus sonhos…


e a lágrima cresceu, sentiu o frio do inverno, escondia-se num pequeno caderninho quadriculado, mas era tudo tão inferno

que ambos, lagrima em despedida e o menino

numa manhã de setembro partiram, ambos

e foi tudo tão lágrima, e foi tudo tão menino

que hoje as flores,

são apenas lápis de cor nas mãos de um sonho.


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