30 março 2025

Tão escura como a solidão de um olhar

O gato já tinha nome, quanto a mim, atribuíram-me um número complexo, e a tua voz quase espuma, em floridos minutos de um relógio quase morto,

Sobre o chão da sanzala onde havia uma fotografia que me recordava a primavera dos teus olhos,

Ontem uma pedra era lançada contra a madrugada, eu

Às vezes, também apedrejado, também ausente o perfume dos teus lábios, de pouca chuva,

Sentindo o peso das lágrimas, com que o gato adorava brincar.

Era mar, aquela janela que todos os dias atravessava o sorriso da tua quase pele, depois

Havia um pássaro, havia uma palavra que durante a noite,

Era também uma lanterna,

Esquelética como o sono.

O gato já tinha nome, quanto a mim, os outros são quase duas luas horas,

Na boca do destino.

O meu pobre menino. Lá estava ele sentado na sombra de uma espingarda, quase sémen palavra de sofrer, se era a dor

Ou se era apenas a ausência em escrever,

Em semear o fogo na despedida de uma casa, havia um cágado, havia dois cães simpáticos, havia três peixes, havia um canário que tanto dançava e cantava,

Que confesso,

Hoje não o faria.

Hoje me condenava.

Tanta coisa que havia, naquela casa...

E havia flores, e havia a minha mãe, e havia o meu pai,

E hoje, apenas os livros os há.

Apenas o gato tem nome, quanto a mim,

Sou o que dizem, eu o ser

Que dizem que o sou; poeta.

Poeta. Sonhador, tantos são os meus sonhos, como tantas são as saudades da minha mãe, e o gato

Quase, que já tem um nome, que é negro

Que entrava pela janela e cagava na minha cama, depois

Também morreu, como o cágado e todos os outros,

E hoje,

São apenas fotografias de uma noite escura.

Tão escura como a solidão de um olhar!


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