22 março 2025

havia um pássaro em tua mão roseira amanhecer

havia um pássaro em tua mão roseira amanhecer, e poisava o vento doce luar na outra janela, em outro mar

do destino que havia um barco, que houve em tempos, há muito tempo, um menino

depois de o rio e depois de a chuva,

ser charco


depois da maré trazer outro pássaro, se o mesmo menino, hoje também uma árvore, se da noite acordar o poema, depois do vento, depois de uma pedra lapidada, ser lançada

contra a palavra. 


havia um pássaro, doce

o mel em teus lábios emagrecidos, em teus olhos, escondidos

havia a pedra também bago também espiga de milho, na terra trabalhada, a charrua amiga,

o beijo

prometido.


o ausentado, o amigo.


havia um pássaro em tua mão roseira amanhecer,

se teus olhos estrelas o são, e terão milhões de palavras, outras madrugadas

trazer cá o vento, e dizer ao vento tudo, tudo aquilo o que o vento precisa de ouvir,

de sentir, também outro vento, depois do portão de entrada ser derrubado, por aquele que foi menino,

depois,

foi soldado…

e hoje, e hoje é um poeta falhado.


havia um pássaro em tua mão, em tua mão desenhada no silêncio de um olhar, em tua mão cansada, tão cansada

de me tocar.


havia um pássaro e em tua mão um outro mar, havia nos pingos da chuva pequeninas gotinhas de alegria, alguns gramas, muito poucos, de poesia

de histórias, e de momentos

tão loucos, que foram loucos.

todos aqueles tristes ventos.


havia um pássaro em tua mão roseira amanhecer…


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