se ergue a lua, se a terra fica sem chão,
se é disparada a bala contra o pão, se é meia-noite quase lentidão,
depois a alvorada,
o jantar, o lanche, o almoço e o pequeno-almoço,
o banho, os cafés e os cigarros, e é outra vez manhã,
outra vez o sono, novamente meia-noite,
outra vez noite, se ergue a lua, a terra fica sem chão,
que um poeta nunca morre, oiço-o dizer,
que um dia nunca é igual a nenhum outro dia, nem a noite o é, nem mesmo o poema,
(mesmo que tenha muita fé)
depois de escrito duas vezes
e lançado ao luar,
depois a lágrima, e se a lua se erguer, e se a terra ficar sem chão,
e se da boca nascerem pássaros em papel, se a cerâmica for mais dura do que o aço, se o titânio um circo,
um palhaço,
e se uma roda dentada for a saudade, se o guarda-chuva custar apenas dez aéreos, se a chuva for o sangue, e a terra das entranhas, uma enxada, ou uma pedra,
se a uva for deus, e o vinho, as lágrimas do diabo,
se o destino for apenas uma palavra, e se a lua se erguer e se a terra ficar sem chão, e se o mar escurecer, e se o céu marear,
e se a palavra for um soldado,
e mil palavras,
um livro de soldados,
se o rio não tiver pontes, se as pontes sem alicerces, voam ao som da gravidade,
seis costelas partidas e o pulso fracturado, e se o vento deixar de ser vento,
e se os meus barcos forem apenas pedacinhos de ontem,
à procura de outros barcos, nos barcos de hoje,
se ergue a lua, se a terra ficar sem chão,
se é disparada a bala contra o pão, e uma mão
puxar a outra mão, duas mãos e muitas outras mãos,
mais um livro, um livro de mãos,
e se deus for uma equação, mil letras, mil incógnitas, se de deus outras mil palavras inaudíveis, vagarosamente loucas na cadeira do barbeiro, uma ausência, outro destino medo, um automóvel desgovernado, o comboio sempre apressado, o vento desliza, e sente,
tão sente que apenas é gente,
que grita depois do vómito, depois da chuva, depois do toque,
a dor da pele, o silêncio da voz…
que um poeta nunca morre.
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