23 fevereiro 2025

A maior flor do mundo (livro de Saramago) olha-me

A maior flor do mundo (livro de Saramago) olha-me,

Eu olho-a acreditando que ela nunca, mas nunca me irá comer,

Depois penso, e se ela me comesse, 

Imagino cada dentada dela no meu corpo frágil que quase se perde no vento,

Depois imagino, imagino o meu sangue a escorrer-lhe dos lábios, depois imagino as suas mão a esquartejarem cada sombra do meu cadáver,

Imagino-a a roubar-me os olhos, depois imagino-me cego, e criança deste livro, desta flor que me come,

Depois imagino o vento, a luz, depois imagino-me no estâmago dela, imagino-me deitado, quase a entrar no intestino desta flor que me come,

Nesta flor que Saramago inventou.

Olho-a.

Ela olha-me.

Depois penso, e se ela me comesse, 

Eu poeta ser comido por uma flor!

Podia ser comido por qualquer um de todos os animais ferozes criados por deus, mesmo até, podia ser comido por um mabeco,

Mas não,

Tinha logo de ser comido por uma flor…

Depois imagino a flor em defecação, e imagino-me aos trambolhões abraçado a toda a merda que imaginei, depois imagino, depois imagino 

Que quer fosse comido por um mabeco ou por esta flor,

Acabava sempre no final por ser apenas um pedaço de merda,

Que para isto,

Eu não precisava de imaginar,

Nem de pensar. 


Porque tudo aquilo que comemos, acaba sempre no final, por ser apenas um pedaço de merda. 


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