Enquanto tudo arde, enquanto tudo ou quase tudo, arde
eu sou a chuva, sou o menino descalço, de sorriso nos lábios,
sou a árvore do quintal, sou a sombra da mangueira, sou o sol da sanzala, a fotografia dos meus sonhos, era o vento do meu cabelo
e hoje,
sou um pedaço de pedra, não tenho emoções, não sofro porque a sílaba do outro livro, sofre
não arde em mim o desejo de regressar, mas poderia tudo largar, e ir, e partir…
e voltar a voar sobre o chão prateado do mar
Enquanto tudo arde, eu fumo, eu bebo qualquer coisa que me vença, que me esqueça
que me diga, ou talvez se silencie
ou também quase chuva que o fui, e partir
e novamente voar
Se o mar voltará a ser o mar
nunca o saberei
nunca escrevi cartas ao vento, e agora
escrevo-as
e lanço-as no rio
como se elas fossem lágrimas, migalhas de um qualquer corpo inventado por um tolo
louco, quase menino
depois da chuva,
depois da solidão se transformar em destino,
depois da janela ser apenas uma mulher, depois do trigo loiro
arder, sobre as palavras semeadas…
Enquanto tudo arde, uma árvore
brinca com um pássaro criança, e uma criança
baloiça nos lábios da chuva, sorri
e enquanto tudo arde
eu observo a chuva, desenho no vento qualquer coisa
que me traga um dia,
a quase nítida melancolia
de uma despedida,
de uma alegria
Enquanto tudo arde, eu leio poesia
oiço música, enquanto tudo arde
e enquanto caem bombas no meu quintal, eu
danço no sótão danças invisíveis, danças caninas
que me faziam correr e descer a alvorada,
até que ao outro dia,
eu era novamente menino,
outra vez poesia
Outra vez enquanto tudo arde
um baloiço estacionado sobre a secretária, uma cadeira cansada
uma cadeira que também ela, arde e vazia
enquanto tudo arde, eu peço à chuva o regresso da noite
embebida em pedaços de fogo, enquanto um circo dá explicações aos poucos espectadores deste circo, que arde
que voa,
e que magoa…
O sorriso de um poeta
Enquanto tudo arde há gente que sofre, gente doente
e gente,
que arde, também
enquanto tudo arde
Enquanto tudo arde.
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