10 dezembro 2024

Havia um relógio que coxeava nas horas nocturnas da chuva

Havia um relógio que coxeava nas horas nocturnas da chuva, 

havia uma mentira também, 

e também havia uma borboleta e também havia 

uma cidade concha e havia um sítio secreto, no meu peito, onde em todos os pássaros finais de tarde brincavam crianças. 


Havia uma estátua de espuma e havia 

também 

um menino com um papagaio na mão, 

havia também, 

também havia um sonho, 

e também havia um enforcado. 

Havia um drogado e havia também uma mulher descalça, 

havia jesus e hoje apenas uma coisa árvore no cimo da montanha. 


Havia um mar que afinal 

nunca passou de um pequeno charutinho, havia um poeta que tem um sonho, 

sentar-se numa cadeira em frente á baía de luanda, fumar um grama de heroína, fechar os olhos... 

e ficar lá, só. 


Só porque havia também uma carta de despedida, de pai para o filho, 

deste que muito te ama, 

e que nunca te esquece e 

talvez houvesse também um homem, mas já não me recordo da tela onde estou a trabalhar. 


Havia um circo. uma trapezista loucamente apaixonada pelos meus poemas, porque por mim bem por ninguém o foi. 

E se o foi, paciência, peço desculpa. 

havia uma hora que hoje é apenas um pequeno rio de nylon entre parede e pedras, 

e também havia um cadáver; o meu. 


O poeta, em lágrimas, o pequeno charutinho, descalço, a desmaiar o capim em redor da sanzala. A mulher quase que morria também havia um figo e uma maçã e uma laranja, esta, divorciada. 


Havia um livro que se vestia de tigre e um tigre que comia pétalas de luz. 

Havia uma janela que estava com os olhos vermelhos, também, 

também ausente havia a governanta, o motorista e o jardineiro, e havia um relógio que coxeava nas horas nocturnas da chuva, também mentira havia um pedaço de vidro que não tinha paciência para fazer versos, tal como eu. 


E um jogo parvo que eu odeio, e se o pudesse assassinar, assassinava-o... 


E havia uma serpente que fumava haxixe e cuspia pedra-pomes.


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