14 novembro 2024

Quase noite

Depois da ausência outra ausência depois a demência que também se alimenta

Da ausência

E da paciência

Depois o silêncio depois a escuridão depois as janelas

Depois

Depois são as escadas depois são as borboletas

São as maçanetas da porta

Que depois não rodam depois da manhã não há mais depois

Depois o dia que é uma tragédia mimada que rima com calçada

Descalça e amada

Que também rima com marmelada e depois a madrugada

De chinelo no pé que depois cai

E depois faz ai

E depois um outro ai

Depois são as estrelas que depois se apagam que depois se cansam

De brilhar depois

Ah

Depois o capim ora dança depois se esconde ora é noite ora é dia depois um menino à procura do chapelhudo depois ausente depois muito doente depois

Depois o cacimbo depois um machimbombo engasgado que depois era gago e que depois

Depois os barcos depois a sombra depois as mangueiras que depois

Morreram depois depois o Baleizão depois a Baía depois as palmeiras

Depois os coqueiros

Depois a infância depois a demência depois a ausência que teima

Depois quase que depois um caixote em madeira com letras encarnadas depois uma seta a apontar o céu e depois

Metrópole – Portugal depois o fumo da tristeza depois as árvores só acordavam depois depois 

Depois uma gravata depois um musseque à espreita depois sou

Depois

Outra granada

Depois já sou depois uma janela depois três vidros depois a ausência do outro vidro

Depois olha por ali depois o mar depois a saudade depois

Depois uma mulher não de carne e osso depois eu sem ossos depois eu tombado depois abria os olhos muito depois depois uma prata galgando a montanha depois uma bolha castanha

Depois descia a bolha castanha depois subia a bolha castanha depois depois vinha a noite depois cruzeiros barcos depois um miúdo a brincar depois no Mussulo depois 

As gaivotas depois depois vinham as primeiras chuvas do dia depois chovia depois me escondia

Depois debaixo da tua saia depois

Depois sorria depois queria tudo depois não queria nada depois rabiscava

Depois ainda não escrevia depois as paredes depois o quarto depois

Depois os desenhos depois as primeiras lágrimas depois as primeiras palmadas depois 

Depois o Tejo depois o engate o broxe e o miete depois um sorriso escrito num papel depois uma carta depois uma letra

Depois uma algazarra depois uma perna partida depois não a minha depois nunca parti nada a não ser

Depois a minha prima em África com uma sandália depois

Depois não falo com ela depois coisas de primos depois as doenças depois a morte depois uma espingarda depois o Herberto depois o Pacheco depois Aleluia as cartas depois do Pacheco depois depois

Depois as lágrimas depois o cansaço depois a sombra depois sem abraço depois uma árvore depois o meu pai depois que voava sobre um ninho de cucos depois foi-se depois depois os cigarros depois procurava na sombra com que o vestiam depois os cigarros depois no meu bolso depois

Depois um café depois um não almoço depois dois não almoços depois três não almoços depois

Depois um meio não jantar depois um cigarro depois escutar a campainha depois ele tocava e acendia uma luzinha muito pequenina depois 

Depois gritava depois não chorava depois não chorou depois quase não depois me reconheceu andava esquecido depois à sua cabeceira

Depois ausência depois demência

Depois não paciência depois 

Depois,


O que virá depois? 


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