Depois da ausência outra ausência depois a demência que também se alimenta
Da ausência
E da paciência
Depois o silêncio depois a escuridão depois as janelas
Depois
Depois são as escadas depois são as borboletas
São as maçanetas da porta
Que depois não rodam depois da manhã não há mais depois
Depois o dia que é uma tragédia mimada que rima com calçada
Descalça e amada
Que também rima com marmelada e depois a madrugada
De chinelo no pé que depois cai
E depois faz ai
E depois um outro ai
Depois são as estrelas que depois se apagam que depois se cansam
De brilhar depois
Ah
Depois o capim ora dança depois se esconde ora é noite ora é dia depois um menino à procura do chapelhudo depois ausente depois muito doente depois
Depois o cacimbo depois um machimbombo engasgado que depois era gago e que depois
Depois os barcos depois a sombra depois as mangueiras que depois
Morreram depois depois o Baleizão depois a Baía depois as palmeiras
Depois os coqueiros
Depois a infância depois a demência depois a ausência que teima
Depois quase que depois um caixote em madeira com letras encarnadas depois uma seta a apontar o céu e depois
Metrópole – Portugal depois o fumo da tristeza depois as árvores só acordavam depois depois
Depois uma gravata depois um musseque à espreita depois sou
Depois
Outra granada
Depois já sou depois uma janela depois três vidros depois a ausência do outro vidro
Depois olha por ali depois o mar depois a saudade depois
Depois uma mulher não de carne e osso depois eu sem ossos depois eu tombado depois abria os olhos muito depois depois uma prata galgando a montanha depois uma bolha castanha
Depois descia a bolha castanha depois subia a bolha castanha depois depois vinha a noite depois cruzeiros barcos depois um miúdo a brincar depois no Mussulo depois
As gaivotas depois depois vinham as primeiras chuvas do dia depois chovia depois me escondia
Depois debaixo da tua saia depois
Depois sorria depois queria tudo depois não queria nada depois rabiscava
Depois ainda não escrevia depois as paredes depois o quarto depois
Depois os desenhos depois as primeiras lágrimas depois as primeiras palmadas depois
Depois o Tejo depois o engate o broxe e o miete depois um sorriso escrito num papel depois uma carta depois uma letra
Depois uma algazarra depois uma perna partida depois não a minha depois nunca parti nada a não ser
Depois a minha prima em África com uma sandália depois
Depois não falo com ela depois coisas de primos depois as doenças depois a morte depois uma espingarda depois o Herberto depois o Pacheco depois Aleluia as cartas depois do Pacheco depois depois
Depois as lágrimas depois o cansaço depois a sombra depois sem abraço depois uma árvore depois o meu pai depois que voava sobre um ninho de cucos depois foi-se depois depois os cigarros depois procurava na sombra com que o vestiam depois os cigarros depois no meu bolso depois
Depois um café depois um não almoço depois dois não almoços depois três não almoços depois
Depois um meio não jantar depois um cigarro depois escutar a campainha depois ele tocava e acendia uma luzinha muito pequenina depois
Depois gritava depois não chorava depois não chorou depois quase não depois me reconheceu andava esquecido depois à sua cabeceira
Depois ausência depois demência
Depois não paciência depois
Depois,
O que virá depois?
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