A tarde parecia o silêncio, tirando isso
Amava-a, fodia-a e drogava-me,
E mesmo que a tarde se quisesse despedir de mim,
Um companheiro anónimo me abraçava,
A tarde, quase sempre, vestida de pérula cânfora madrugada, vestida
Eu nu, passeando entre livros
Entre fotografias
Entre pequenas coisas,
Que são tão poucas,
Que fico assustado.
Que fico com medo, de ter medo
E mesmo assim,
Eu sabia que um dia te ia encontrar dentro de uma nuvem azul,
E encontrei-te.
Afinal, és tu, aquilo que procurava.
A tarde parecia o silêncio, e eu, hoje pareço tudo aquilo que dizem de mim, que hoje eu pareço qualquer coisa maleável, que saboreia a manhã
Antes que acordem as primeiras lágrimas. Hoje
Sabia-o, que um dia te ia encontrar
E
Escrevo-te acreditando que me lês, nem que seja na casa de banho,
Mas lê-me, por favor,
Lê-me.
Lê-me…
A tarde, a tarde parecia o silêncio, eu despenteado à janela
A olhar barcos em papel,
Que passeiam no meu mar. A imaginar margaridas, sim
Margaridas,
A brincar.
Que hoje não sei quem sou. Que hoje…
Que a tarde parecia o silêncio,
Que tu não lês aquilo que escrevo
Mas os outros também não lêem aquilo que escrevo,
Porquê importar-me se lês ou não lês,
Aquilo que escrevo?
Porquê.
Decimo quinto destino, primeiro apeadeiro do sono
Ai
Acorda o sonho,
E eu recuso-me sonhar.
Eu quero mais morrer
Do que,
Sonhar.
Sonhar como o senhor Álvaro de Campos?
Dar um tiro nos miolos como o senhor Mário de Sá-Carneiro?
Ou simplesmente me masturbar à porta de um bar,
Como senhor,
Luiz Pacheco?
Tanto me faz, já estou por tudo.
Vou à janela. Vejo o teu rosto lacrimejante de dor, toco-te e percebo o quão frágil tu és. Tão frágil,
E tão guerreira. Parabéns. A tarde parecia o silêncio, e mesmo não o querendo
Eu o tive, depois de morrerem todas as madrugadas de mar
Adormecido
Nos teus lábios.
Ergo-me. Imploro-me e sentenceio-me
E peço a deus em que não acredito,
Forças,
Para te esquecer.
A tarde, meu amor
A tarde é quase silêncio, é quase espuma na tua pele de amêndoa
Toco-te,
E percebo
A tua fragilidade.
A tarde quase nua, quase silêncio
Quase purpura,
Acreditando
Acreditando em quê, meu amor.
Que sou um falhado. Um perfeito falhado.
Acreditando em quê, meu amor!
Que eu posso voar?
Que um dia possa discursar
Nas Nações Unidas?
Que um dia a tarde deixe de ser silencio,
Que passe a ser,
Prazer. Sem dor.
A tarde, meu amor.
Em perfeito silêncio, distante do destino,
Que me puxa
Para os teus braços,
A cada minuto,
Deste meu sofrimento.
Sei. Eu sei que o sou. Sempre o fui.
Um sonhador, incompreendido.
Um livro
Que ninguém
Gosta de ler.
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