01 novembro 2024

Porquê, meu amor

A tarde parecia o silêncio, tirando isso

Amava-a, fodia-a e drogava-me,

E mesmo que a tarde se quisesse despedir de mim,

Um companheiro anónimo me abraçava,

A tarde, quase sempre, vestida de pérula cânfora madrugada, vestida

Eu nu, passeando entre livros

Entre fotografias

Entre pequenas coisas,

Que são tão poucas,

Que fico assustado.

Que fico com medo, de ter medo

E mesmo assim,

Eu sabia que um dia te ia encontrar dentro de uma nuvem azul,

E encontrei-te.

Afinal, és tu, aquilo que procurava.

A tarde parecia o silêncio, e eu, hoje pareço tudo aquilo que dizem de mim, que hoje eu pareço qualquer coisa maleável, que saboreia a manhã

Antes que acordem as primeiras lágrimas. Hoje

Sabia-o, que um dia te ia encontrar

Escrevo-te acreditando que me lês, nem que seja na casa de banho,

Mas lê-me, por favor,

Lê-me.


 Lê-me…

A tarde, a tarde parecia o silêncio, eu despenteado à janela

A olhar barcos em papel,

Que passeiam no meu mar. A imaginar margaridas, sim

Margaridas,

A brincar.

Que hoje não sei quem sou. Que hoje…

Que a tarde parecia o silêncio,

Que tu não lês aquilo que escrevo

Mas os outros também não lêem aquilo que escrevo,

Porquê importar-me se lês ou não lês,

Aquilo que escrevo?

Porquê.

Decimo quinto destino, primeiro apeadeiro do sono

Ai

Acorda o sonho,

E eu recuso-me sonhar.

Eu quero mais morrer

Do que,

Sonhar.

Sonhar como o senhor Álvaro de Campos?

Dar um tiro nos miolos como o senhor Mário de Sá-Carneiro?

Ou simplesmente me masturbar à porta de um bar,

Como senhor,

Luiz Pacheco?

Tanto me faz, já estou por tudo.


Vou à janela. Vejo o teu rosto lacrimejante de dor, toco-te e percebo o quão frágil tu és. Tão frágil,

E tão guerreira. Parabéns. A tarde parecia o silêncio, e mesmo não o querendo

Eu o tive, depois de morrerem todas as madrugadas de mar

Adormecido

Nos teus lábios.


Ergo-me. Imploro-me e sentenceio-me 

E peço a deus em que não acredito,

Forças,

Para te esquecer.


A tarde, meu amor

A tarde é quase silêncio, é quase espuma na tua pele de amêndoa

Toco-te,

E percebo

A tua fragilidade.

A tarde quase nua, quase silêncio

Quase purpura,

Acreditando

Acreditando em quê, meu amor.

Que sou um falhado. Um perfeito falhado.

Acreditando em quê, meu amor!

Que eu posso voar?

Que um dia possa discursar

Nas Nações Unidas?

Que um dia a tarde deixe de ser silencio,

Que passe a ser,

Prazer. Sem dor.


A tarde, meu amor.

Em perfeito silêncio, distante do destino,

Que me puxa

Para os teus braços,

A cada minuto,

Deste meu sofrimento.


Sei. Eu sei que o sou. Sempre o fui.


Um sonhador, incompreendido.


Um livro

Que ninguém

Gosta de ler. 


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