12 novembro 2024

Os olhos de Matilde

Viviam escondidos num sonho falhado e sempre que abriam a janela,

Mãe quem é o meu pai?

Ao longe, quase sempre, um círculo de luz com olhos verdes brincava junto ao rio

Ela

Abraçava-o e segredava-lhe

Não tenhas medo Alberto

E o pobre do Alberto imaginava-se sentado junto a uma cuba em INOX com capacidade de cem mil litros e de uma bomba mecânica, e imaginava-se

A conversar com o silêncio e imaginava-se a escrever um poema à cuba em INOX e imaginava-se misturado com o ruido da bomba mecânica e que às vezes

Imagina-se a segredar-lhe junto ao motor eléctrico

Amo-te

Quem é o meu pai mãe?

Anos depois a cada pergunta a mesma resposta

Morreu Matilde

Como morreu mãe

Como morrem todos os pais Matilde

Com medo de não verem mais os filhos mãe

Sim Matilde

Às vezes era um carro que quase desgovernado o acordava daquela conversa entre o silêncio e uma cuba e uma bomba mecânica

Como estará agora a Matilde

Depois fechavam a janela, e quase que num abraço mais fino do que o medo, porque existiam algumas pétalas em papel sobre a cama, ela 

Porquê pai

É assim tão difícil dizeres-me que gostas muito de mim apesar de apenas agora saberes da minha existência

E os seus cabelos floriam a cada Primavera

O Alberto

Que quase que apostava

Que ouvi um fio luz que me segredava

Também te amo parvo

És um tolo

É tudo tão estranho pai

O que é estranho Matilde

Os adultos pai

E eu ia jurar que a bomba mecânica

Falava pai

Ouve lá sua cuba em INOX tu também não ouviste

E que não

Pai conta-me uma história

Pegou-lhe na mão, segredou-lhe quase que a lamber-lhe o cabelo

Um dia Adosinda

Um dia vais perceber porque vivíamos escondidos num sonho falhado

Prometes pai que vais gostar de mim

Sim Matilde prometo

E sempre que abriam a janela,

Mãe quem é o meu pai?

Era uma vez uma lágrima do tamanho do mundo

Do mundo pai

Sim Matilde do mundo agora escuta

Era uma vez uma lágrima do tamanho do mundo que queria ser o sol para alegrar o sorriso dos adultos, um dia, quando acordou no rosto de um pedacinho de mar

Pai o mar existe

Sim Matilde

Esfregou os olhinhos e

O quê pai

Espera Matilde

A lua disse-lhe que a partir daquele dia ia ser sempre o sol

Mesmo quando chovesse pai

Sim Matilde

Pai

Sim Matilde

Eu também posso ser o sol

Claro que sim Matilde

Basta acreditares

Acreditar pai

Acreditar Matilde.

Tenho sono pai

Dorme meu amor.

Até amanhã.


(ficção)


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