Viviam escondidos num sonho falhado e sempre que abriam a janela,
Mãe quem é o meu pai?
Ao longe, quase sempre, um círculo de luz com olhos verdes brincava junto ao rio
Ela
Abraçava-o e segredava-lhe
Não tenhas medo Alberto
E o pobre do Alberto imaginava-se sentado junto a uma cuba em INOX com capacidade de cem mil litros e de uma bomba mecânica, e imaginava-se
A conversar com o silêncio e imaginava-se a escrever um poema à cuba em INOX e imaginava-se misturado com o ruido da bomba mecânica e que às vezes
Imagina-se a segredar-lhe junto ao motor eléctrico
Amo-te
Quem é o meu pai mãe?
Anos depois a cada pergunta a mesma resposta
Morreu Matilde
Como morreu mãe
Como morrem todos os pais Matilde
Com medo de não verem mais os filhos mãe
Sim Matilde
Às vezes era um carro que quase desgovernado o acordava daquela conversa entre o silêncio e uma cuba e uma bomba mecânica
Como estará agora a Matilde
Depois fechavam a janela, e quase que num abraço mais fino do que o medo, porque existiam algumas pétalas em papel sobre a cama, ela
Porquê pai
É assim tão difícil dizeres-me que gostas muito de mim apesar de apenas agora saberes da minha existência
E os seus cabelos floriam a cada Primavera
O Alberto
Que quase que apostava
Que ouvi um fio luz que me segredava
Também te amo parvo
És um tolo
É tudo tão estranho pai
O que é estranho Matilde
Os adultos pai
E eu ia jurar que a bomba mecânica
Falava pai
Ouve lá sua cuba em INOX tu também não ouviste
E que não
Pai conta-me uma história
Pegou-lhe na mão, segredou-lhe quase que a lamber-lhe o cabelo
Um dia Adosinda
Um dia vais perceber porque vivíamos escondidos num sonho falhado
Prometes pai que vais gostar de mim
Sim Matilde prometo
E sempre que abriam a janela,
Mãe quem é o meu pai?
Era uma vez uma lágrima do tamanho do mundo
Do mundo pai
Sim Matilde do mundo agora escuta
Era uma vez uma lágrima do tamanho do mundo que queria ser o sol para alegrar o sorriso dos adultos, um dia, quando acordou no rosto de um pedacinho de mar
Pai o mar existe
Sim Matilde
Esfregou os olhinhos e
O quê pai
Espera Matilde
A lua disse-lhe que a partir daquele dia ia ser sempre o sol
Mesmo quando chovesse pai
Sim Matilde
Pai
Sim Matilde
Eu também posso ser o sol
Claro que sim Matilde
Basta acreditares
Acreditar pai
Acreditar Matilde.
Tenho sono pai
Dorme meu amor.
Até amanhã.
(ficção)
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