15 novembro 2024

Poeta quase Quase poeta

Quase poeta quase engenheiro quase quase

Quase silêncio quase noite

Quase erecção quase

Quase poema quase uma pedra um limão

Quase esqueleto quase

Coração quase coração quase

Quase janela a dar à luz outra janela quase

Quase luz

 

Quase morte má sorte quase

Quase um sótão quase em tesão quase em luar

Quase em vidro o teu corpo nu quase

Líquido

Quase lamber o teu corpo quase espuma

Tão quase aborto

Tão quase bruma

Quase uma porta

Quase um dia

 

Quase que finjo que vivo

Quase vivo quase fingido

Quase fugido e quase

Quase perdido

 

Quase luz que nunca foi luz e quase que é gente

Quase porta para o quintal quase uma criança quase

Quase que não sente

Quase poeta quase

Cigarro quase

Quase a mesa redonda que quase

Nasceu quase

Quadrada num quase dia de vento

 

Quase que é sábado e quase que aposto que quase quase noite quase estrela quase oceano

Na quase

Minha mão

Quase que grito choro quase

Quase que invento janelas quase

Para o mar

Tão quase agora que quase diria

Hoje quase morri

 

E quase que senti as tuas nádegas sentadas quase no meu quase colo

Que quase

Quase adivinhava as curvas do quase teu corpo

Na quase madrugada

Quase migalha

Quase nada quase pão quase tudo

No entendo

Quase poeta

Quase

Nada.

 

Quase objecto Objecto Quase (livro de
José Saramago, muito bom) quase flor quase jardim quase caravela quase

Quase pintor pintor quase no quase distante luar

Quase livro poeta quase quase

Sou quase o mar!

 

Quase soldado quase espingarda carne para canhão

Quase madrugada fui fui quase nada

Quase bebé e quase espermatozóide no quase óvulo da quase

Minha mãe

Quase jangada fui quase

Quase fogueira fogueira quase

Quase quase

Apenas quase. Quase nada.

Nada.

 

Quase prata quase oiro no quase caos quase

Quase maçada no quase engano quase pertenço quase

Quase que escrevo e no entanto quase nada escrevo quase

Sentado quase a olhar as fragas quase cansadas

Quase dobradas

Quase mães infindáveis do amanhecer quase

Quase um livro que quase

Me dá quase prazer

De ler quase

Quase que sinto e quase que não sinto

E quase que minto quase

Quase infinito avião quase

Quase foguetão

Lunar

Quase

 

Poeta

Sou

Quase

Morto quase quase morto

Quase cansaço abraço quase

Quase que gosto gosto quase quando o quase dia se veste quase

De quase noite,


E eu sou quase tudo, apenas quase!


Quase que sofro quase sofro quase

Quase que me afogo neste quase mar quase

Quase mar,


Mas que mar é este que quase não é o mar quase

E que é quase mar,

Quase

Quase amar quase pedra quase luar

Quase lua maré quase

Quase farto tão quase farto

Em ser quase

Poeta quase...


Quase que toco toco quase no quase medo

Quase tocar tocar quase a tua pele branca quase

Quase branca neve quase na tua mão

Quase

Que toca quase quase na minha mão...


Quase

Quase

Quase toca no meu coração!


E ele quase que quase morre

De aflição quase quase

Ao cair a noite

No quase chão!





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