16 novembro 2024

Mentiras

Nem o comboio passa nesta sala, descarrilhasse, me abalroasse e me atirasse

Sei lá eu para onde queria que o comboio me atirasse…

Tão pouco passeiam barcos nesta sala,

E vi tantos, tantos barcos a passear no quintal de Luanda, debaixo das mangueiras.

Nem eu sou mais o comandante daquele petroleiro enorme, muito grande, que sempre que eu queria,

Me levava,

E me trazia.

Da terra à Lua,

E às vezes,

Da Lua até uma pequena maresia.

Nem a lareira desta sala me aquece, nem há estrelas no tecto desta sala, no silêncio desta sala

Oiço uma gaivota desgovernada, um cacilheiro já muito velhinho,

Pedindo esmola no Rossio.

Nem esta sala é um poiso, nem é um abraço,

Nem esta sala parece, quando na realidade,

Eu é que pareço aquela migalha sobre a mesa,

- Luís

Sim pai,

- É de dia ou é de noite

Nem esta sala, tanto faz pai, os pássaros são sempre os mesmos, as árvores, idem

Reparei hoje

Que são as árvores da noite passada,

- Espiava-te ao longe, tu

Tu fumavas o teu cigarro, estavas sentado num banco ripado, como tantas vezes eu te vi, sentado num banco ripado

E eu tinha medo, medo

E guardava-te das garras ferozes que novamente se podiam prender a ti,

Tu, timidamente, olhavas-me, meio acabrunhado, meio com medo

Meio 

Meio abandonado, mas eu ao longe apenas com o olhar protegia-te,

Deixa lá isso agora, pai

Brevemente estarás em casa, irás de promessa à Senhora dos Prazeres

E com um jeitinho,

Serás avô.

Nem o comboio passa nesta sala, descarrilhasse, me abalroasse e me atirasse

Sei lá eu para onde queria que o comboio me atirasse…

E eu aos poucos fui me licenciando em Mentiras, mentia ao meu pai, que tudo estava bem

Mentia à minha mãe,

Fazendo-a acreditar

Que sim, quase tudo bem…

- Vês, ainda tu desdéns dos meus santinhos 

Claro que não, mãe

É um milagre,

De Deus.

E eu mentia, até a mim mentia, fazendo-me acreditar

Que tudo era mentira; e eu, acreditava.

Mentia ao meu pai quando lhe sorria, quando na verdade

Eu não queria sorrir.

Mentia ao meu pai quando o olhava e pensava 

O que faço eu a este corpo, que a cada dia que passava

Lhe faltava um pedaço.


E eu,

Eu mentia!


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