Nem o comboio passa nesta sala, descarrilhasse, me abalroasse e me atirasse
Sei lá eu para onde queria que o comboio me atirasse…
Tão pouco passeiam barcos nesta sala,
E vi tantos, tantos barcos a passear no quintal de Luanda, debaixo das mangueiras.
Nem eu sou mais o comandante daquele petroleiro enorme, muito grande, que sempre que eu queria,
Me levava,
E me trazia.
Da terra à Lua,
E às vezes,
Da Lua até uma pequena maresia.
Nem a lareira desta sala me aquece, nem há estrelas no tecto desta sala, no silêncio desta sala
Oiço uma gaivota desgovernada, um cacilheiro já muito velhinho,
Pedindo esmola no Rossio.
Nem esta sala é um poiso, nem é um abraço,
Nem esta sala parece, quando na realidade,
Eu é que pareço aquela migalha sobre a mesa,
- Luís
Sim pai,
- É de dia ou é de noite
Nem esta sala, tanto faz pai, os pássaros são sempre os mesmos, as árvores, idem
Reparei hoje
Que são as árvores da noite passada,
- Espiava-te ao longe, tu
Tu fumavas o teu cigarro, estavas sentado num banco ripado, como tantas vezes eu te vi, sentado num banco ripado
E eu tinha medo, medo
E guardava-te das garras ferozes que novamente se podiam prender a ti,
Tu, timidamente, olhavas-me, meio acabrunhado, meio com medo
Meio
Meio abandonado, mas eu ao longe apenas com o olhar protegia-te,
Deixa lá isso agora, pai
Brevemente estarás em casa, irás de promessa à Senhora dos Prazeres
E com um jeitinho,
Serás avô.
Nem o comboio passa nesta sala, descarrilhasse, me abalroasse e me atirasse
Sei lá eu para onde queria que o comboio me atirasse…
E eu aos poucos fui me licenciando em Mentiras, mentia ao meu pai, que tudo estava bem
Mentia à minha mãe,
Fazendo-a acreditar
Que sim, quase tudo bem…
- Vês, ainda tu desdéns dos meus santinhos
Claro que não, mãe
É um milagre,
De Deus.
E eu mentia, até a mim mentia, fazendo-me acreditar
Que tudo era mentira; e eu, acreditava.
Mentia ao meu pai quando lhe sorria, quando na verdade
Eu não queria sorrir.
Mentia ao meu pai quando o olhava e pensava
O que faço eu a este corpo, que a cada dia que passava
Lhe faltava um pedaço.
E eu,
Eu mentia!
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