02 novembro 2024

Loucura

Loucura, procuram-se loucos. Loucura, 

Sair do comboio em andamento

Acreditando,

Que o comboio está parado.

Loucura,

Amar e ser amado

Loucamente,

Por uma mulher casada.

E a loucura ainda não é nada.

Loucura,

Ler um poema de Cesariny à mulher 

Com quem acabamos de fazer amor,

Loucura,

É tocar uma guitarra,

Sem o saber,

Sem nada.

E mesmo assim,

Continuamos a ser loucos.

Loucura, meu deus

Loucura,

Ter uma pistola apontada à cabeça

E o corno sem coragem para premir o gatilho,

E eu,

Sem coragem para me matar.

Loucura,

Loucura é imaginar o Esteves à porta da tabacaria, e o senhor Álvaro de Campos, à janela, a pensar

Pura metafisica, no entanto

Continua a ser louco,

Por pouco,

Um tiro nos cornos, uma dentada no dedo, e nunca se sabe

O preço a pagar por tanta mercadoria.

O senhor Álvaro de Campos diz à menina para comer,

Vejam só,

Comer chocolates; come menina, come

Come chocolates, come

Olha que não há coisa melhor na vida,

Do que,

Comer chocolates.

O que é então a loucura! 

Loucura,

Loucura é o Esteves

Não perceber,

Que o senhor Álvaro de Campos o olha…

E mesmo assim,

Acende o cigarro,

E loucura seria se a janela fosse uma espada.

Ou se a espada louca,

Fosse apenas os lábios,

Só os lábios da janela.

E continua o louco,

A ser louco,

Loucura,

Encarcerado num rés-do-chão sem visitas com mais vinte malucos,

E outros tantos poetas.

O mais louco era eu, que comparando a minha loucura,

Com a dos meus companheiros,

A minha era a mais silenciada,

E mais modesta,

E a mais pura que nem uma cabra.

Loucura,

No entanto, ela começou a gostar de mim, fiz-lhe uns pequeninos versos, e em troca

Eu não queria a carne, nem a vagina, nada

Apenas queria que ela

Me colocasse mais gotinhas no leite do que o prescrito…

É que eu ficava com uma pedra,

Que às vezes voava sobre o Ferro, também ele louco mas por infidelidade da esposa,

Antes de adormecer.

Do refeitório ao quarto são meia dúzia de passos,

E eu,

Estacionava nas ilhas Canárias.

E ela levava-me à cama,

E contava-me uma história.

Um dia fiz-me criança, vagueei sobre o capim louco junto ao musseque, poucas coisas, ainda

Não são a loucura de ontem. Depois ela de sorriso na cara…

Francisco,

Deixa a droga.

Loucura,

Loucura era eu levar o Pacheco ao Mercado para bebermos um copo,

E quando eu desse conta,

Lá estava ele a masturbar-se na casa de banho.

Loucura,

Loucura é Cristo pregado de mãos e pés, acorrentado

Sem se poder,

Sequer,

Também ele,

Se masturbar.

Loucura,

É ser filho único e não ter ninguém para

Foder,

A cabeça.


Mas a pior loucura,

É ser pai por algumas semanas,

E deixar de o ser,

Pelo querer… 


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