20 outubro 2024

Paixão Geométrica

 

É da tua voz difusa que os traços de suor

acordam nas pétalas loucas que os poetas inventam

misturam-se nos teus lábios (sem que eu saiba se são doces ou amargos) sílabas

de água perdida entre rochas e árvores de candeias

à luz semeada pelo diáfano silêncio dos desertos cansados da tua boca,

 

Há dias que não percebo esta solidão de areia

que o vento levita das pequenas junções das lajes de granito da eira de Carvalhais

e no entanto

acompanha-me o melódico sorriso do melro alegremente

penso eu (apaixonado) porque faz balançar os pinheiros dos sonhos,

 

Atravessas a cidade sobre o arame da saudade

e deixas cair sobre mim

as madeixas de papel que se desprendem do teu cabelo revoltado

com palavras misturas-lhe palavras em constante equilíbrio

e sofrimento de dor,

 

Inventas o rio para me alegrares

mas até isso me entristece como me entristecem as amarra de aço

que prendem os barcos apodrecidos

(também eles de aço)

a um cais de desassossego que tu dizes ser meu quando nasci das finas cordas que as gaivotas engolem,

 

Apetece-me subir ao andar superior onde habitam os gemidos da tua voz

que definem os traços de suor

que a pobre ardósia escreve construindo a geometria do amor

Dois quadrados podem ou não podem apaixonarem-se um pelo outro?

E dois triângulos de Luz?

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