05 outubro 2024

Fui crescendo

 

Fui crescendo como uma erva daninha

percorri oceanos invisíveis com bonecos de pedra

fui ouvindo vozes misturadas com débeis amanheceres

em lábios de gaivotas cansadas

fui crescendo

fui habitando o teu corpo de espuma

que dorme num cubo de vidro

fui teu

fui dele

fui...

vou sem regressar voando sobre os teus cabelos de amêndoa...

fui crescendo até que o amor me aprisionou aos teus abraços de água salgada,

 

Fui mendigo dormindo na calçada

fui poeta sem escrever

leitor

carcereiro onde havia livros em prisão perpétua...

 

Fui poeta

leitor desgovernado debaixo dos plátanos emagrecidos

fui banco de jardim onde te sentaste

e beijaste

a mim

crescendo,

 

Fui habitante do teu coração

onde brincávamos com as palavras das marés de Sábado à noite

fui crescendo

crescendo...

sem escrever no teu corpo versos de cacimbo

entre o som dos mabecos e os pobres telhados de zinco...