06 outubro 2024

acreditava que eras de pedra

 

acreditava que eras de pedra

e que tinha no olhar uma nuvem de luz

sentia-te vacilar nas searas da tristeza

voando sobre os tentáculos da solidão

dizias-me que eu pertencia às árvores de folha caduca

e em cada Outono

eu

tombava nas tuas mãos emagrecidas

os dedos esticados e finos

quando procuravas o mar nas clareiras do silêncio depois de partir a tarde

acreditava que eras de pedra

e percebia que amavas e percebi que tinhas no peito um coração de rosa dorida

 

(doente

dormente

ausente

e mente)

 

o amor depois da tempestade

fingia suspender-se nos teus dedos de verniz

compridos e longos

distantes como a madrugada

e vinha a noite

e tu acordada

esperavas

não dormias

abrias e fechavas

janelas

e ventanias

como sentias o meu corpo dentro do teu ventre

 

talvez

um dia percebas as fachadas dos meus olhos coloridos pelos pigmentos da insónia

memória tenho e nunca me faltou

corpo tenho e dou-me conta que me roubaram o esqueleto

em aço inoxidável

ao carbono

talvez percebas que o amor é uma treta como são todas as palavras

todos as imagens...

e um dia acredites nas gaivotas e nos barcos com dois braços meus

velas em teus cabelos

loucas

cinzentas que sobejaram do jardim teus lábios