acreditava que eras de
pedra
e que tinha no olhar uma
nuvem de luz
sentia-te vacilar nas
searas da tristeza
voando sobre os
tentáculos da solidão
dizias-me que eu
pertencia às árvores de folha caduca
e em cada Outono
eu
tombava nas tuas mãos
emagrecidas
os dedos esticados e
finos
quando procuravas o mar
nas clareiras do silêncio depois de partir a tarde
acreditava que eras de
pedra
e percebia que amavas e
percebi que tinhas no peito um coração de rosa dorida
(doente
dormente
ausente
e mente)
o amor depois da
tempestade
fingia suspender-se nos
teus dedos de verniz
compridos e longos
distantes como a
madrugada
e vinha a noite
e tu acordada
esperavas
não dormias
abrias e fechavas
janelas
e ventanias
como sentias o meu corpo
dentro do teu ventre
talvez
um dia percebas as
fachadas dos meus olhos coloridos pelos pigmentos da insónia
memória tenho e nunca me
faltou
corpo tenho e dou-me
conta que me roubaram o esqueleto
em aço inoxidável
ao carbono
talvez percebas que o
amor é uma treta como são todas as palavras
todos as imagens...
e um dia acredites nas
gaivotas e nos barcos com dois braços meus
velas em teus cabelos
loucas
cinzentas que sobejaram
do jardim teus lábios