25 outubro 2024

Ausência,

 

25/10

 

Ausento-me deste triângulo equilátero, acreditando que quanto mais longe estiverem os teus olhos,

Mais perto,

Tenho eu as estrelas.

E eu quero trocar os teus olhos,

Por todas as estrelas, mesmo aquelas que são em papel,

Colorido. Mesmo aqueles que são invisíveis.

Ausento-me dos teus olhos. Esqueço que tu tens olhos, esqueço-me que eu também,

Sou,

Um triangulo,

Um triangulo desengonçado, com duas janelas viradas para o rio,

Esse rio que me fode todos os dias, e todas as noites,

Esse Tejo,

Como quando eu fodia as putas depois…

Depois de voar numa prata de alumínio.

 

E eu queria morrer. Depois acordava quase esquecido por entre os armários de um cubículo desorientado, faminto

Um puto, chorava. Tinha fome.

Eu sofria com aquilo. E pegava na prata novamente,

E

 

Acordava no rés-do-chão de uma mulata

Enquanto se masturbava de encontro

A um espelho. O meu rosto, chorava. Ouvia os silêncios da fome pelas frestas e do crucifixo suspenso na parede,

Nem um ai. Talvez se masturbasse também

Enquanto a mulata,

Me masturbava. Eis o silêncio. Eis a vida disfarçada de mendigo, de maluco,

Que estou,

Dizem eles.

Quem são eles? Quanto pesam, eles?

Eles que se fodam, escreveria o poeta no seu caderno preto.

Foda-se, diria o artista enquanto pincelava os mamilos da carbonada,

Afilhada. Fecha-me essa janela, Alfredo

E o desgraçado do gato erguia-se, desenhava o círculo na circunferência da noite,

E

 

Assustou a afilhada. Vestiu-se e subiu ao telhado.

Madrugada, quero eu ser quando as silabas de o terror descerem as catacumbas

Do pequeno degredo,

Onde vou esconder os teus olhos.

 

Pausa. Vou buscar um copo com uísque. Talvez fume um cigarro.

 

Começo a esquecer-me de quem sou, como já esqueci o esconderijo

Onde escondi

Os teus olhos.

Felizmente a noite ama-me muito

Mãe. Tu sabes que sim,

Porque sabias

Que

Eu

Mãe,

Eu amo a noite mãe. E sinto-me um presidiário no corredor da morte,

À fome

E à sede,

Apenas com dezanove cigarros. As lâmpadas, meu amor.

Morreram ontem, enquanto mergulhava no teu silêncio, travestido de sofrimento.

 

Então?

Quem sou eu, então?

O ninharias que nunca saiu de Alijó, o parolo que nunca foi a Roma, mas já fez amor em Paris

Quem sou, eu, sabendo que

Nunca

Sou

Ser

Alguma coisa, estar vivo, destemido, estar ausente, com uma pequena dor

No dente,

Ele sente,

Está a ferver,

O meu carro, ferve

Ela ferve por causa da menopausa,

E eu, sofro, e fervo, e vomito lume pelos quarto cotovelos da noite.

E para mim, juro

Tanto faz.

Que seja noite,

Ou que mude a hora. Eu só quero esconder-me dos teus olhos!

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