(detesto rosas
porque picam
porque podem ser em papel
e ardem)
detesto as madrugadas
envenenadas pelos teus beijos vestidos de mendigo
quando poisam sobre o
tabuleiro do pequeno-almoço
e na mesa-de-cabeceira espera
por ti uma fina e tímida folha
com a débil despedida
abro a janela e começo a voar
em direcção ao vazio
percebendo que em ti
e de ti
as palavras são como pedaços
de cigarro semeados no cemitério do medo
e há paixão no teu corpo
uma lareira de desejo
percorrendo as minhas mãos de areia húmida
como dizem que às gaivotas
aparecem durante a noite vómitos de sobejadas paixões
em cansaços de amêndoa
(detesto rosas
porque picam
porque podem ser em papel
e ardem)
ardem as rosas
e o corpo das rosas
ardem os filhos das rosas
e os filhos do corpo das rosas
ardem os poemas
e as canetas de tinta
permanente...
ardem...
como limalha de aço suspensa
nos teus lábios
beijar-te sabendo que és um
corpo vulnerável
incendiável
um corpo... volátil como a
minha voz quando sinto a tua presença
… assim.… como o teu... como
as sílabas decalcadas nos seios do amanhecer...
(Francisco)
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