22 março 2024

a tua falta em mim

imagino-te sentado sobre a minha mão

e sinto as tuas adormecidas palavras nos meus olhos verdejantes

oiço-te sussurrar as migalhas ínfimas dos desejos prometidos

como se o meu corpo ainda existisse para ti

a tua falta em mim

parece um transatlântico paquete vergado pela vadia arquitectura do sono

imagino-te em sombras de espuma

como um sonâmbulo esqueleto procurando fotografias de ontem

imagino-te sentado sobre os meus seios de pálpebra encalhada nos rochedos das lágrimas

vejo o cascalho cintilante da insónia dor nos clandestinos orvalhos

e tu voas sobre os cinzentos veleiros com asas de papel

submersos no cansaço da madrugada

 

sinto a tua falta

e percebo que nunca mais terei os teus beijos

e as tuas acariciadas mãos de andorinha sideral

imagino-te dentro de um espelho esperando a minha mão

e o cheiro do meu corpo...

serei eu a tua fechadura a onde te acorrentaste quando das tempestades de areia?

sinto

sinto a tua falta quando as manhãs se tornam enormes

quando os beijos ficam inacessíveis

e os pássaros loucos como as tuas palavras nas montras da cidade

imagino-te

imagino-te sentado em mim

 

esperando a abertura da janela da semana passada

imagino-te impregnado no livro de mármore em lápides de paixão

oiço-te

e quero-te

como te quis

como te ouvia

sentado em mim

semeando lenços de seda sobre os socalcos adormecidos do xisto pergaminho

imagino-te em mim

quando tu pertences aos Deuses andaimes das saudades invisíveis

amar-te-ei eternamente como acontece com as lâmpadas nocturnas do sexo?

despeço-me de ti... imagino-me em ti perdidamente só como uma lagarta solitária

 

 

(Francisco)

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