imagino-te sentado sobre a minha mão
e sinto as tuas adormecidas palavras nos
meus olhos verdejantes
oiço-te sussurrar as migalhas ínfimas dos
desejos prometidos
como se o meu corpo ainda existisse para
ti
a tua falta em mim
parece um transatlântico paquete vergado
pela vadia arquitectura do sono
imagino-te em sombras de espuma
como um sonâmbulo esqueleto procurando
fotografias de ontem
imagino-te sentado sobre os meus seios de
pálpebra encalhada nos rochedos das lágrimas
vejo o cascalho cintilante da insónia dor
nos clandestinos orvalhos
e tu voas sobre os cinzentos veleiros com
asas de papel
submersos no cansaço da madrugada
sinto a tua falta
e percebo que nunca mais terei os teus
beijos
e as tuas acariciadas mãos de andorinha
sideral
imagino-te dentro de um espelho esperando
a minha mão
e o cheiro do meu corpo...
serei eu a tua fechadura a onde te
acorrentaste quando das tempestades de areia?
sinto
sinto a tua falta quando as manhãs se
tornam enormes
quando os beijos ficam inacessíveis
e os pássaros loucos como as tuas palavras
nas montras da cidade
imagino-te
imagino-te sentado em mim
esperando a abertura da janela da semana
passada
imagino-te impregnado no livro de mármore
em lápides de paixão
oiço-te
e quero-te
como te quis
como te ouvia
sentado em mim
semeando lenços de seda sobre os socalcos
adormecidos do xisto pergaminho
imagino-te em mim
quando tu pertences aos Deuses andaimes
das saudades invisíveis
amar-te-ei eternamente como acontece com
as lâmpadas nocturnas do sexo?
despeço-me de ti... imagino-me em ti
perdidamente só como uma lagarta solitária
(Francisco)
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