À esquerda
Tudo na mesma
Como a lesma
À direita tudo importa
Mesmo que seja sorte
De principiante
O meu vizinho
Matou-se a noite passada
O meu cão não pára de
ladrar
A tartaruga está bloqueada
Na estante
E o dia
Acordou sorridente
Como sempre
Ao acordar
O meu corpo é uma jangada
A minha alma é
incompreendida
Porque não tenho alma
Porque não tenho vida
Siga
À esquerda
À direita
Não percebi
Aquela coisa da caneta
Da esferográfica do
doutor Montenegro
Não percebi
Juro
Siga
Siga que amanhã é outro
dia
Que a ditadura não
passará
Que a vida é poesia
Que Cristo da Nazaré
Tem fé
Tanta fé
Que até
Acredita na sombra
E naquela coisa da pomba
À esquerda
Tudo na mesma
Como a lesma
À direita tudo importa
Mesmo que seja sorte
De principiante
A Ranhosa
Detesta
A prosa
Por sua vez
A prosa
Detesta a ranhosa
E mesmo assim
A lareira arde
Desce ao silêncio da mesa
Depois
Ergue-se a melodia
Nas veias corre vinho
E bebe o sangue da
videira
E do sangue da videira
Acorda o corpo
Sítio
Sitiado braço que inventa
a alvorada
Para uns
Estou louco
Para outros
Assim assim
E para ela
Não estou nada
Nunca estive nada
Os fósforos dizem-me que
precisam de calor
Que entre dois corpos
Há transferência de calor
E eu
STOP
Ponto final
Esquerda.
Direita.
Servimos torradas após a
meia-noite.
11/02/2024
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