11 fevereiro 2024

Cristo da Nazaré

 

À esquerda

Tudo na mesma

Como a lesma

 

À direita tudo importa

Mesmo que seja sorte

De principiante

 

O meu vizinho

Matou-se a noite passada

O meu cão não pára de ladrar

A tartaruga está bloqueada

Na estante

E o dia

Acordou sorridente

Como sempre

Ao acordar

 

O meu corpo é uma jangada

A minha alma é incompreendida

Porque não tenho alma

Porque não tenho vida

 

Siga

 

À esquerda

À direita

Não percebi

Aquela coisa da caneta

Da esferográfica do doutor Montenegro

Não percebi

Juro

 

Siga

 

Siga que amanhã é outro dia

Que a ditadura não passará

Que a vida é poesia

Que Cristo da Nazaré

Tem fé

Tanta fé

Que até

Acredita na sombra

E naquela coisa da pomba

 

À esquerda

Tudo na mesma

Como a lesma

 

À direita tudo importa

Mesmo que seja sorte

De principiante

 

A Ranhosa

Detesta

A prosa

 

Por sua vez

A prosa

Detesta a ranhosa

 

E mesmo assim

A lareira arde

Desce ao silêncio da mesa

Depois

Ergue-se a melodia

Nas veias corre vinho

E bebe o sangue da videira

E do sangue da videira

Acorda o corpo

 

Sítio

Sitiado braço que inventa a alvorada

Para uns

Estou louco

Para outros

Assim assim

E para ela

Não estou nada

 

Nunca estive nada

Os fósforos dizem-me que precisam de calor

Que entre dois corpos

Há transferência de calor

E eu

STOP

Ponto final

 

Esquerda.

Direita.

 

Servimos torradas após a meia-noite.

 

 

11/02/2024

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